A ilusão dos bens materiais!

256

A liturgia do 25º. Domingo do Tempo Comum sugere-nos, hoje, uma reflexão sobre o lugar que o dinheiro e os outros bens materiais devem assumir na nossa vida. De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, os discípulos de Jesus devem evitar que a ganância ou o desejo imoderado do lucro manipulem as suas vidas e condicionem as suas opções; em contrapartida, são convidados a procurar os valores do “Reino”.

Na primeira leitura(Cf. Am 8,4-7), o profeta Amós denuncia os comerciantes sem escrúpulos, preocupados em ampliar sempre mais as suas riquezas, que apenas pensam em explorar a miséria e o sofrimento dos pobres. Amós avisa: Deus não está do lado de quem, por causa da obsessão do lucro, escraviza os irmãos. A exploração e a injustiça não passam em claro aos olhos de Deus.

O Evangelho(Cf. Lc 16,1-13) apresenta a parábola do administrador astuto. Nela, Jesus oferece aos discípulos o exemplo de um homem que percebeu como os bens deste mundo eram caducos e precários e que os usou para assegurar valores mais duradouros e consistentes… Jesus avisa os seus discípulos para fazerem o mesmo. Afirma-se que o instinto mais forte entre nós os seres humanos é o de sobrevivência.

Na parábola deste domingo Jesus mostra um exemplo claro do funcionamento do instituto de sobrevivência. Um administrador é acusado de ter esbanjado os bens do seu senhor. O senhor não quer conversa. Demite o funcionário na hora: “Já não podes mais administrar os meus bens”(Cf. Lc 16,2). Com esta decisão o futuro do administrador é posto em perigo. Não é mais jovem; falta-lhe a vitalidade de assumir um emprego braçal: “Para cavar não tenho forças; de mendigar tenho vergonha”(Cf. Lc 16,3). E aí, ele vai deixar-se morrer de fome? Neste momento o seu instinto de sobrevivência entra em ação: “Ah! Já sei o que fazer”(Cf. Lc 16,4)

De que se trata este “Ah!”? O administrador vai roubar o seu senhor uma última vez, mudando os valores das contas dos deveres de seu chefe. Se um deve cem barris ao senhor, o administrador reduz a dívida para cinquenta. Se outro deve cem sacas, o administrador manda falsificar a conta par oitenta. Através deste golpe, ele ganha a estima e a gratidão dos devedores, e tem certeza de que na casa de qualquer um deles sempre terá cama e comida para si. O que pode surpreender-nos é que “o senhor elogiou o administrador desonesto, porque agiu com esperteza”(Cf. Lc 16,8). Esta esperteza não representa mais uma perda de dinheiro para ele? Mas as coisas são assim mesmo. Admiramos aqueles que sabem recuperar o equilíbrio ameaçado, que são survivors, como se diz em inglês. Nós, também, precisamos tornar-nos espertos. Esta é a moral da parábola. Mas a nossa esperteza terá de ser espiritual, porque não somos “filhos deste mundo”(…) mas filhos da luz”(Cf. Lc 16,8).

Qual é a nossa situação: Não é muito diferente daquela do administrador. Esbanjamos os bens de nosso Senhor – nossa vida, nosso tempo, nossos talentos – jogando-os fora em pecado ao invés de trabalhar bem com eles e fazê-los render. Está chegando a hora de prestar contas. O que diz o nosso instinto de sobrevivência? Usemos o tempo que nos resta para “fazer amigos”. Mas, como fazer amigos? Pratiquemos o bem para com os outros, demos esmolas, perdoemos as ofensas que o nosso próximo comete contra nós. O Senhor elogiára a nossa esperteza, porque encontramos um jeito de evitar a condenação. E quanto àqueles que nós tratamos  bem, um dia eles nos “receberão nas moradas eternas”(Cf. Lc  16,9).

O Evangelho com frequência faz diversas aplicações práticas desse ensinamento de Cristo. Aquele no qual se insiste mais tem a ver com o uso da riqueza e do dinheiro: “Eu vos digo: usai o ‘dinheiro’, embora iníquo, para fazer amigos. Quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. É como dizer: fazei como aquele administrador; fazei-vos amigos daqueles que um dia, quando vos encontrardes em necessidade, possam acolher-vos. Esses amigos poderosos, sabemos, são os pobres, já que Cristo considera dado a Ele em pessoa o que se dá ao pobre. Os pobres, dizia Santo Agostinho, são de certa forma, nossos correios e transportadores: eles nos permitem transferir, desde agora, nossos bens na morada que se está construindo para nós no céu.

Na segunda leitura(Cf. 1Tm 2,1-8), o autor da Primeira Carta a Timóteo convida os crentes a fazerem do seu diálogo com Deus uma oração universal, onde caibam as preocupações e as angústias de todos os nossos irmãos, sem excepção. O tema não se liga, directamente, com a questão da riqueza (que é o tema fundamental da liturgia deste domingo); mas o convite a não ficar fechado em si próprio e a preocupar-se com as dores e esperanças de todos os irmãos, situa-nos no mesmo campo: o discípulo é convidado a sair do seu egoísmo para assumir os valores duradouros do amor, da partilha, da fraternidade.

Neste domingo, o Dia do Senhor, em torno da Palavra e da Eucaristia, experimentemos o Mistério de Cristo Ressuscitado, vivenciando neste dia, o Senhor Jesus que nos mostra que nossa confiança deve estar voltada para os bens do Reino de vida, par a valorização da pessoa humana e para a liberdade. Apegue-se aos bens eternos, porque deste mundo nada levaremos que não sejam as obras de caridade