Ascese cristã

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Catequese e espiritualidade Ascese cristã

O tema, admito, é árido, mas tem sua importância. Há os que acreditam poder conquistar o céu ao preço de penosas penitências. Enganam-se redondamente. Nós, que admiramos a verdadeira Espiritualidade, acreditamos e sabemos que o céu – a outra margem do rio – é graça de Deus, que será dada para os que vivem em sua graça, e não para os que se vangloriam de caminhar sobre as águas. Deus é o barqueiro que nos levará para a outra margem da vida se não tivermos a presunção duma travessia solitária.

Ascese é uma palavra grega que significa simplesmente exercício. Religiosamente, comporta esforços, renúncias e penitências em vista da perfeição. Fazer ascese é exercitar-se para adquirir musculatura espiritual e poder percorrer com maior desenvoltura os caminhos do bem. Fazer ascese não tem nada a ver com a moderna “cultura do corpo”, ou o fisiculturismo.

O verdadeiro asceta, por conseguinte, não é necessariamente magro, esquelético, descarnado. Muitas vezes o é, mas não se pode medir o grau de perfeição ou de espiritualidade pelo seu físico, mas antes pela intensidade de vida em prol dos grandes valores humanos e religiosos.

Em relação à ascese, os mestres espirituais sempre apontaram dois extremos a serem evitados: o do laxismo, que se caracteriza por um horror a qualquer tipo de renúncia ou sacrifício. O laxo é essencialmente um comodista, que só pensa no próprio prazer. É um egoísta sem grande caráter. Não busca forças para elevar-se, lutar, vencer e atravessar o rio. O segundo perigo é o rigorismo que se expressa como violência contra o próprio corpo. O rigorista não se dá descanso, acha que está pecando se sentir algum prazer material e quer atravessar o rio sozinho. Enquanto o primeiro é, via de regra, um glutão satisfeito, o segundo pode fazer-se um penitente carrancudo.

Não é preciso dizer que ambos estão longe do verdadeiro espírito da ascese cristã e dos verdadeiros caminhos da sabedoria humana. O laxo, por ficar aquém do que poderia ser e conseguir, e o rigorista, por perder o bom senso e ir além dele.

A Bíblia não faz a apologia da penitência, mas também não a desconsidera simplesmente. Jesus pregou: “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Mt 16,24; Mc 8,34; Lc 9,23). São Paulo parece temer as práticas ascéticas como se depreende da Carta aos Colossenses: “Ninguém, pois, vos critique por causa da comida ou bebida ou em matéria de festa ou de lua nova ou de sábados” (2,16). Denuncia o falso ascetismo de certas proibições que “são preceitos e doutrinas dos homens. Têm ares de sabedoria, mas são regras de afetada piedade, humildade e severidade com o corpo; em verdade não têm valor algum, a não ser para a satisfação da carne” (vv. 22-23).

Em contraposição, a tônica da verdadeira Espiritualidade se centra na consagração e no amor da pessoa a Deus, o que inclui um abandono e uma escolha: “Buscai as coisas do alto e não as da terra” (Cl 3,2) e “mortificai vossos membros terrenos” (v. 5). “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33). “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho mas não vos preocupais com o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23,23)!

A verdadeira ascese, por isto, mais do que um caminho em direção a si mesmo, comporta uma luta em direção aos outros. Faz-se ascese como forma de consagração e amor. A pessoa se purifica para viver mais desimpedidamente pelos outros. Renuncia a coisas válidas para ser mais irmã e companheira.

A Tradição cristã encontrou sua melhor formulação ascética na expressão: “Nudus nudum Christum sequi”, ou seja, seguir nu, despojado, o Cristo nu e despojado. Em vista disso, o movimento ascético, penitencial, não é uma operação fechada sobre si mesma, a se stante, como diz o latim. A penitência, em si mesma, não tem religiosamente nenhum valor. Seria apenas uma dieta espiritual, mas que não conduziria a endereço algum. A ascese só tem valor quando feita “por amor de”, “em vista a”, “em benefício de”. Quando recebe apenas o caráter de quem a faz, mas não o endereço de por quem é feita, a ascese é vazia e perigosa, inútil, suspeita e não recomendável.

Por sua natureza, a vida é uma força selvagem, com uma pujança formidável, com majestade apaixonante e beleza muitas vezes cruel. É como um diamante que, para não deixá-la em estado bruto, precisa ser burilado pela ascese. Os pais e educadores fazem isto com as crianças. Os adultos, consigo mesmo.

Concentrados em nós mesmos, não passamos de indivíduos. Descentrados de nós e concentrados nos outros, tornamo-nos pessoas. Sobre-centrados em Deus, transformamo-nos em criaturas divinas. Este processo pode ser doloroso e corresponde à tríade espiritual bíblica do jejum (con-centração em si), esmola (des-centração de nós e concentração no pobre) e oração (sobre-centração em Deus).

Mas há outras formas de ascese. Na ascese da fé, a pessoa se aceita com seus dolorosos e insuperáveis limites, fraquezas e misérias, dor e desenganos da vida, e com o desfecho da morte, aparentemente o absurdo e total fracasso da vida. Na ascese moral, a pessoa diz sim ao bem e não ao mal, abraçando e renunciando ao mesmo tempo. Na ascese escatológica, a pessoa alimenta uma constante disposição para a partida e uma iluminada vigilância diante da vida em Deus. Para quem é cristão, existe ainda a ascese da cruz, que consiste em abraçar o escândalo do calvário, identificando-se com o Cristo que não afastou o cálice da dor nem fugiu da idiotice da cruz, fazendo-se obediente à vontade do Pai.

Em conseqüência, parece claro que fazer ascese não consiste em mortificar simplesmente o corpo, mas em morti-ficar (fazer morrer) o velho Adão ou o animal que é egoísta, guloso, violento, preguiçoso e cruel em nós. Fazer ascese consiste em renunciar ao eu não intencionado por Deus e não em tentar ser, simplesmente, mais e melhor.

A verdadeira ascese visa a fazer-nos mais livres, levando-nos a viver mais plenamente. Não procura arrancar qualquer erva daninha em nosso jardim espiritual, mas cultivar os frutos e as flores que ele pode, com a graça de Deus, com a ajuda dos irmãos e com a coragem pessoal, produzir.

Brevemente, eis alguns princípios que orientam o verdadeiro caminho da libertação humana:
1) A ascese é um meio, somente um meio, embora importante e, ao mesmo tempo, doloroso.
2) A ascese tem valor relativo e só é aceitável como serviço de amor e quando leva o penitente a identificar-se com os outros e com o grande Outro.
3) O ser humano tem uma natureza ferida pelo pecado e necessita da graça para resgatá-la e da ascese para fortalecer o homem espiritual e interior.
4) A ascese religiosa objetiva a purificação do pecador e é a contrapartida humana devida ao pecado.
5) A ascese não cria méritos para a graça, mas serve de conditio sine qua non (condição necessitante) para ela.
6) A ascese não é um luxo reservado a poucos, mas é um ideário abraçado por quem quer ser grande.
7) A ascese não faz ninguém santo, mas os santos fazem ascese.

Se alguém, por fazer ascese, se fizer triste e azedo, é melhor que não a faça. É preferível e é mais engraçado um comilão feliz a um atleta espiritual emburrado. Um dos frutos da verdadeira ascese é a alegria. Tanto quanto o comilão feliz, o asceta também sabe cantar. E canta. E canta melhor.

Frei Neylor José Tonin, via Shalom