Brisa de um novo tempo

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Brisa de um novo tempo

Nada há de mais radiante que a contemplação do novo. Nossa vida é feita de etapas, ciclos e meses, onde periodicamente afastamos um pouco daquilo que cansou nossa vista, dando espaço a qualquer outra novidade que roube nosso encanto, nossas esperanças. Esse reciclar constante que fazemos das coisas, dos sentimentos, da vida é como estações cíclicas, mas positivas, que revitalizam nossas energias e nos fazem renovar as esperanças. Tal qual a natureza, fiel e pontual com suas quatro estações. Afinal, também somos parte – e tomamos parte – dessa rotatividade da Natureza.

Mas há quem pense – e diga – que a natureza existe para nos servir. Como se dela não fizéssemos parte! Tanto quanto o maior ou o menor dos animais, a mais bela ou a mais fétida das flores, o ser humano é parte dessa cadeia biológica, apenas com um diferencial: usa do corpo para evolução do espírito. Nas estações da vida humana encontramos sempre com o mesmo sentimento que revigora o sentido da vida, ou seja, a alegria de viver. Assim na nossa primavera, a infância; no verão acalorado da nossa juventude; na comedida idade da razão, a vida outonal dos adultos ou mesmo no inverno glacial e solitário daqueles que se preparam para dizer adeus. Todos, indistintamente, trazem consigo um sentimento de gratidão pelo simples prazer de provarem um pouco, bem ou mal, da oportunidade de viver.  O que nos difere é exatamente a consciência de poder reconhecer isso. E dizer.

Já o animal e o vegetal nada dizem. Estes possuem o espectro do “ânimo” (vida animada, que nasce, cresce e morre), mas não o invólucro da “alma” (vida espiritual que recebe de Deus para evoluir e retornar à origem criadora); daí nossa gerência interior (inteligência) capaz de perceber e valorizar instintivamente essa qualidade, esse privilégio que nos coloca um grau acima de qualquer outra criatura. Muito antes das revelações messiânicas, ou mesmo de qualquer aparato tecnológico, científico ou cultural – pois a arte da escrita era ainda um artifício rudimentar, privilégio de poucos – o autor desconhecido do livro do Eclesiastes tornava público suas indagações diante da vida. Dizia ele: “Eis o que reconheci ser bom: que é conveniente ao homem comer, beber, gozar de bem-estar em todo o trabalho ao qual ele se dedica debaixo do sol, durante todos os dias de vida que Deus lhe dá. Esta é a sua parte. Se Deus dá ao homem bens e riquezas, e lhe concede delas comer e delas tomar sua parte, e se alegrar no seu trabalho, isto é um dom de Deus” (Ecle 5, 17-18).

Tomando ao pé da letra, tal parecer é quase uma injuria aos princípios cristãos, cujo pedestal é a vida comunitária. É preciso, antes, expurgar o individualismo, o singular da revelação divina, pois quando Deus fala ao homem, fala a todos, não a um único ser vivente. É conveniente ao homem comer e beber… É conveniente a todos… Gozar de bem-estar em todo o trabalho… Isto tudo é um dom de Deus… Então a conclusão do texto traz a brisa desejada, o sopro da revelação: “Ele (o ser humano) não pensa no número dos dias de sua vida, quando Deus derrama em seu coração a alegria…” (Ecle 5, 19).

Esse é o “novo” que a fé nos proporciona. Viver, viver intensamente, não é viver desregradamente, egoisticamente… No segredo do sentido da vida está a visão de suas etapas e a intensidade com que vencemos cada uma delas, com alegria e gratidão a Deus. Aos que não enxergam na própria existência a mão primorosa da criação ainda a nos moldar, lapidar pacientemente, qualquer brisa de um novo tempo oferecido por Deus passará ao largo, imperceptível, inutilmente. “Boa fama vale mais que bom perfume” (Ecle 7,1), dirão estes. Mas aquele que acredita vai mais longe: “Mais vale o dia da morte que o dia do nascimento” (Ecle 7,1). Porque a primavera vem sempre depois do inverno.