Corpo e Sangue de Cristo: Vinde, adoremos!

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A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo foi instituída, inicialmente, na Bélgica, na Diocese de Liège, em 1246. O Papa Urbano IV que estendeu a Solenidade para a Igreja Católica em todo o mundo. É celebrada na quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade. É o momento solene em que os fiéis rendem graças a Deus pelo inestimável dom da Santa Eucaristia, na qual o próprio Senhor Jesus se dá a nós como alimento de Vida Eterna.

Todos professamos que a Santa Eucaristia é a fonte e o centro de toda a vida cristã. Nós cremos que Jesus está presente, de maneira real, nos dons Eucarísticos: “O nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício Eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da Cruz, confiando à Igreja, sua esposa amada, o memorial de sua morte e ressurreição”(Cf. Sacrosanctum Concilium, n. 47) Por isso fazemos memória da Aliança de amor e compromisso que o Senhor realiza conosco em cada Eucaristia.

No centro da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo está quer a celebração de Deus que alimenta o seu povo e que, no seu Filho, dá-lhe o alimento supremo e eterno, quer a grande Eucaristia dos batizados.

Para exprimir esta oração de louvor e de agradecimento, que dirigimos ao Senhor acolhendo o dom do seu amor, a Escritura emprega duas palavras: a bênção (primeira leitura – Gn 14,18-20) e a ação de graças (segunda leitura – 1Cor 11,23-26).

Na primeira leitura – Gn 14,18-20) a Igreja nos apresenta a figura verdadeiramente misteriosa de Melquisedec. Ele é rei e é sacerdote – não sacerdote de uma divindade pagã, mas “sacerdote do Deus Altíssimo”(Gn 14,18). Ele vai ao encontro de Abraão, que está saindo vitorioso de uma batalha na qual lutavam nove reis, e leva consigo pão e vinho. Sendo sacerdote do Deus Altíssimo, ele confere uma bênção sobre Abraão em nome do supremo Deus “Criador do céu e da terra”(cf. Gn 14,19) e Abraão, por sua vez, dá-lhe em tributo “o dízimo de tudo”(cf. Gn 14,20). Foi o autor da carta aos Hebreus que descobriu na pessoa de Melquisedec uma das maiores prefigurações de Cristo. Ele é rei e sacerdote, uma antecipação digna de Cristo Rei do Universo e Sacerdote da nova e eterna aliança. O sacrifício que ele vem para oferecer não é a carne de bois e cabritos, mas pão e vinho, os mesmos elementos que Cristo usará para tornar presente seu sacrifício de paz no altar da Missa. Ele se aproxima de Abraão, pai de todos os que creem, com a maior naturalidade e confiança, abençoando a Abraão, e mostrando-se maior do que Abraão,(sendo que o maior sempre abençoa o menor – Hb 7,7), assim como Cristo dirá aos judeus no Evangelho de João: “Antes que Abraão existisse, eu sou”(cf. Jo 8,58). Cristo é, ao mesmo tempo velado e revelado na personagem de Melquisedec. Na hóstia consagrada, levada em procissão hoje pelo celebrante e adorada pelo povo, Cristo também se esconde e se revela sob a espécie do pão transubstanciado.

Estas duas dimensões de oração estão intimamente ligadas e devem habitar a nossa vida para além da missa, para testemunhar todo o amor com o qual Cristo ama os homens (Evangelho – Lc 9,11b-17).

Em cada Santa Missa, após a consagração do pão e do vinho, o celebrante diz: “Eis o mistério da fé”, e o povo responde uníssono: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” Este mistério de fé que é a morte e a ressurreição do Senhor se faz sacramentalmente presente na Santíssima Eucaristia. Neste sentido, a própria Eucaristia pode ser descrita como “mistério de fé”.

A Solenidade de Corpus Christi é a manifestação pública de adoração a Jesus hóstia Santa. É grande, é belo, é extraordinário e maravilhoso o que celebramos hoje – e que acontece todos os dias nas igrejas do mundo inteiro – quando o sacerdote, nas suas mãos, pega o pão e diz: “Tomai, isto é o meu corpo!”, não é o meu corpo, o corpo do padre Roger, ou o de qualquer outro sacerdote; é o próprio Corpo do Senhor! Quanta ousadia ao pegar o cálice e dizer: “Este Sangue é o de Cristo!”. O Senhor Jesus está no meio de nós, vivo, presente e jamais ausente. Ele faz com que Sua presença seja mais intensa entre nós, sobretudo, no Sacramento da Eucaristia. Por isso hoje honras, louvores, glórias, ação de graças, adoração e prostração diante d’Aquele que é o nosso Deus!

A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo é a festa da Pessoa de Cristo. Ao levantarmos os olhos para o Pão e o Vinho consagrados, só podemos dizer: “É mesmo Ele! Meu Senhor e meu Deus!”

+ Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG