Dez em um

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Ao receber as duas pedras das leis divinas, Moisés tremeu na base. Tinha em mãos a síntese da vontade de Deus, um contrato claro e sucinto, que só seria válido se diante dele a humanidade empenhasse sua palavra, sua fidelidade. Dez regras, dez singelos códigos de conduta, com os quais nossa concordância e disposição para observá-los garantiriam a felicidade e o Reino de Deus entre nós.

Acostumados que estavam à infinidade de leis, normas, regras, preceitos, proibições ou qualquer outra imposição que tolhesse suas liberdades, não deram valor a tão singelos mandamentos. “Só isso? Não, Deus não se contentaria com tão pouco”. A ideia da grandeza divina, da sua Onipotência, Onisciência e Onipresença, do seu cetro de justiça acima de qualquer poder, reino ou instituição humana, foi, por certo, o primeiro grande obstáculo, que pôs em dúvida a eficiência daquelas dez regrinhas apenas. Não, Deus não exigiria apenas isso da humanidade, para glorificá-la conforme suas promessas!

Poucos deram atenção à riqueza que escondia aquele decálogo. Assim, logo, logo, a humanidade caiu na rotina de uma vida desregrada. Alguns milênios depois, eis que Deus volta à ação, enviando-nos seu Filho e nos dando nova Lei, o Amor total de um holocausto supremo. Sua mensagem e sua oferta não se gravaram em tábuas de pedras insensíveis e frias. Ao contrário, foram escritas sobre um coração traspassado pela dor e esvaído por uma prova de amor sem limites. Sintetizou ainda mais a Lei de Moisés: amar apenas; a Deus e aos irmãos… Isto lhe era suficiente, para nossa remissão. Com essa prática, tudo mais viria por acréscimo, por coerência com as virtudes que emanam de qualquer coração que saiba amar em plenitude.

Destituiu a Lei de Moisés? Claro que não, pois diria Cristo: “Não vim para abolir a Lei, mas para levá-la à Perfeição”. Seu mandamento resumir-se-ia num único, o Amor inconteste a Deus e aos irmãos. Seria este o único caminho que nos leva à Perfeição, ao coração do Pai. Selou com seu sangue esse pacto de amor, cumprindo sua Palavra: “Eu vim para que todos tenham vida”. Ora, “Moisés foi fiel em toda sua casa, como servo e testemunha das palavras de Deus. Cristo, porém, o foi como Filho à frente de sua própria casa. E sua casa somos nós” (Heb 3,5-6).

Sua casa somos nós… De nada nos valem leis complexas, extenuantes, ardilosas, quando a astúcia de qualquer bom advogado consiste exatamente na capacidade de descobrir brechas, furar o cerco que as leis civis apresentam. Para cada lei humana existem dez maneiras de burlá-las, dizem os entendidos. Já o advogado das causas perdidas, aquele que veio em nosso socorro em troca do nada que somos, é sucinto em sua proposta: o grande e único mandamento é o amor. Este não se viola. É imutável.

Trocando em miúdos, de nada vale a complexidade das leis humanas, quando a Lei de Deus nos pede uma única atitude: o Amor. Por via das dúvidas, a Lei de Moisés nos lembra alguns itens essenciais, cuja observância facilita o caminho. Não matar é o centro dessas questões, mas não se trata apenas da morte física, pois que inúmeras outras formas de morte ao irmão são praticadas com a falta de amor, solidariedade. Pior delas é aquela que mata o Cristo dentro de nós, porque a insensibilidade ao seu Pacto de Amor não nos permite essa experiência diante das atribulações da vida.

Mas Deus é dez. Então sua misericórdia infinita vai além da capacidade que temos de quantificar e medir nossas ações e relações pessoais. Não será pela simples prática de normas pré-estabelecidas que seremos salvos, mas apenas e tão somente pela prática do amor. Amor que é Deus. Deus que mora no meio de nós, em nós.Deus único!