Em busca da verdade

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A verdade nos liberta do pecado

A filosofia humana nasceu buscando a verdade. Há mais de dois mil e quinhentos anos, mergulhado na contemplação do mundo, um homem se deparou com uma frase, que estampava o templo de Apolo, em Delfos, na Grécia. Uma frase que o provocou profundamente: Conhece-te a ti mesmo. A partir daí aquele homem simples começou a se questionar, até encontrar uma resposta adequada àquela frase quase provocativa. E arriscou uma opinião: “A verdade está no próprio homem, cabe a ele encontrá-la”. Assim nascia o movimento filosófico que Sócrates, o homem que soube pensar, legou ao mundo. Mas será que encontrou a verdade?

No ministério de Cristo poucas perguntas ficaram sem respostas. A mais famosa delas foi feita por Pilatos, na eminência da condenação daquele que se apresentou como a verdade absoluta. Então seu algoz – que tinha o poder de libertá-lo – faz a pergunta crucial: “Afinal, o que é a verdade?” Sua resposta retumbou no silêncio de uma plateia sedenta de sangue, que não percebeu a profundidade das palavras de Jesus, antes que a pergunta fosse formulada: “Todo aquele que está com a verdade, ouve a minha voz”. Isto posto, Jesus não encontrou razão para dizer algo mais, pois nesta afirmativa já se encontra a resposta que o mundo busca, mas nem todos encontram. Porque a verdade é divina; a mentira faz parte do mundo dos homens. Porque quem segue os ensinamentos da Verdade, segue a voz de Deus. Porque onde a verdade impera, o bem borbulha; onde impera a mentira, o mal faz festa. Essa é a verdade que deixamos de perseguir. Sem ela, o domínio do engodo, do oportunismo e das artimanhas pessoais deita e rola sobre o bem comum, favorecendo momentaneamente a poucos, em detrimento do bem-estar ou da dignidade mínima que a grande maioria clama para si próprio. Se a nível pessoal o desconhecimento da verdade provoca grandes estragos, imaginem a nível político ou comunitário.

Desculpem-me, não há necessidade de imaginar. Basta um olhar compassivo ao que nos resta hoje, como nação, como povo que merecia um mínimo de respeito e compaixão. Se o turbilhão que nos arrasta como raça humana que não mais se reconhece como tal, faz vítimas em todo canto do mundo e lança fora qualquer princípio de respeito e dignidade, algo mais aterrador do que qualquer hecatombe bélica, nuclear ou endêmica está dizimando nossas forças, nossa alma, a essência humana que enterramos no quintal do comodismo, da indiferença. Já não mais nos conhecemos. A verdade presente no âmago das nossas virtudes foi atirada no lixo das ambições pessoais, político-partidárias, sociais ou setoriais. Cada qual defende sua própria verdade como única e absoluta. Que se danem as verdades, as necessidades, a realidade dos demais. A minha verdade é o que interessa agora. A verdade de Cristo? Esta nem Pilatos esperou pela resposta… Crucifica-o, crucifica-o, era a voz do povo, cego e manipulado num jogo de interesses político-religioso. Talvez tenha sido esse o único momento da história onde a voz do povo não foi a voz de Deus.

Esse mesmo povo que ainda hoje brada e clama por justiça, mesmo que tardia! Ele se conhece e sabe de sua força, sua importância decisiva num momento histórico. É verdade, muitos ainda não se curaram da cegueira momentânea, mas “aquele que está com a verdade” há de ouvir a voz do bom pastor: Como diria Paulo aos irmãos de Gálatas – povo também oprimido e humilhado por seus dominadores – quando chamava a todos à razão, à consciência da realidade: “Se alguém pensa que é importante, quando de fato não o é, está enganando a si mesmo”. E concluía: “Cada um examine a sua conduta, e então achará motivos de satisfação em sua própria pessoa” (Gal 6,3-4). Porque a conduta do justo prima pela verdade. Porque só mesmo a verdade poderá nos libertar.