Entre a cruz e o peixe

1948
Entre a cruz e o peixe

A origem da fé cristã não foi um mar de rosas. Ao contrário, um mar de sangue. A história dos primeiros cristãos é uma dessas odisséias humanas que nunca será plenamente compreendida dentre os clássicos episódios das lutas de dominação entre povos, grupos, tribos ou etnias, dado a extraordinária força e capacidade de superação só conhecidas na igreja de Cristo. Impérios e conquistadores poderosíssimos a perseguiram (e ainda perseguem), sem nunca conseguirem subjugá-la por completo. Ainda estamos aqui. Vencemos e continuamos vencendo.

Qual o segredo de tamanha garra, perseverança? O próprio Cristo deixou gravado no coração de seus seguidores a promessa da supremacia sobre todos os males contra seu povo: “As portas do Inferno não prevalecerão sobre sua Igreja”. Diante de tamanho poder e graça, às vezes o pobre cristão vacila, hesita na fé, titubeia frente aos gritantes desafios que o mundo faz continuamente à sua opção. Afinal, o mundo é avesso a tudo que foge de sua lógica terrena, a cruel realidade metafísica, do racionalismo pau-pau, pedra-pedra que nossos olhos contemplam. Deixamos de lado a capacidade de enxergar com o coração… E isso é o grande empecilho para preservar o dom da fé, capacidade primeira da alma submissa ao amor de Deus. A pureza da doutrina cristã está exatamente na simplicidade desta. Isso os apóstolos descobriram logo de início, na convivência com o Mestre, na escuta de sua Palavra, na prática de seus ensinamentos, na compreensão de suas cruzes, na graça da perseguição, na glória de seus martírios. Sobretudo, na visão das Promessas, pelas quais tudo valeria a pena.

Uma opção cristã, no entanto, não significava – e nem poderia significar – submissão a tudo e aceitação passiva às injustiças que o mundo lhes infringia. Eram perseguidos, sim. Eram mortos de maneira torpe, como agentes de vis espetáculos circenses, mas fugiam quando possível, esbravejavam contra a tirania, oravam pelos que os perseguiam, sepultavam seus mortos em campos santos e perseveravam… Para sobreviverem como um povo adotaram até mesmo um símbolo secreto, só revelado entre eles: o desenho de um peixe.  Num eventual encontro, alguém traçava um semicírculo no chão, na água, numa superfície qualquer. Era a deixa para o outro que, se cristão também fosse, faria outro círculo côncavo ao primeiro, formando assim a figura de um peixe. Pronto! Poderiam se falar à vontade, ajudarem-se mutuamente ou mesmo conduzir o outro para os locais secretos onde aconteciam seus banquetes eucarísticos.

Mas donde vem tão estranho simbolismo? Do próprio nome de Jesus. Ou seja, da língua grega… Segredo esse que foi descoberto um dia, segundo relatos históricos, por Quilon, mago e espião do império romano, que vendeu essa informação a Petrônio, tio do imperador Vinício, grande perseguidor dos cristãos. Diz o relato: “Senhor, pronuncia em grego a frase seguinte: Jesus Cristo, Filho de Deus, Redentor”. Certamente, a pronúncia não saiu em alto e bom tom, posto que o simples pronunciar do nome de um Deus Desconhecido, na cultura pagã, poderia significar apostasia. Mas, e daí? “Agora, toma a primeira letra de cada uma dessas palavras e reúne-as de modo a formar uma nova palavra”. Então, a revelação: Peixe!

Esse foi o segundo grande escudo do povo cristão, depois da cruz. Um peixe. Seu simbolismo persiste até hoje, principalmente em países onde o cristianismo é mais intensamente rejeitado e sua cruz vilipendiada publicamente. Da mesma forma que, num país cristão desde a origem, cujo primeiro nome foi Terra de Santa Cruz, possa ocorrer a necessidade de substituí-la por um símbolo mais discreto e menos assustador. Brasil, mostra tua cara! Povo de Deus ainda somos. Nenhum cristão vai desenhar um peixe nas paredes só porque a tirania de nossas leis resolveu expurgar a cruz de Cristo. De qualquer forma, Ele continuará sendo Jesus Cristo, Filho de Deus Redentor.