Enviados em missão!

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Enviados em missão!

Embora as leituras de hoje nos projetem em sentidos diversos, domina a temática do “envio”: na figura dos 72 discípulos do Evangelho, na figura do profeta anônimo que fala aos habitantes de Jerusalém do Deus que os ama, ou na figura do apóstolo Paulo que anuncia a glória da cruz, somos convidados a tomar consciência de que Deus nos envia a testemunhar o seu Reino.

É, sobretudo, no Evangelho(Cf. Lc 10,1-12.17-20) que a temática do “envio” aparece mais desenvolvida. Os discípulos de Jesus são enviados ao mundo para continuar a obra libertadora que Jesus começou e para propor a Boa Nova do Reino aos homens de toda a terra, sem excepção; devem fazê-lo com urgência, com simplicidade e com amor. Na ação dos discípulos, torna-se realidade a vitória do Reino sobre tudo o que oprime e escraviza o homem. Jesus, no Evangelho deste domingo, faz uma afirmação que pode muito bem retratar a nossa realidade de hoje. As pessoas que não acreditam em Deus ou os que desejam Deus são muitas, mas os evangelizadores são poucos(Cf. Lc 10,2). Como evangelizar o mundo como o nosso marcado pela descrença, esfriamento de muitos cristãos católicos na fé e indiferentismo, tão característicos de grande parte do povo? Hoje em dia, parece haver uma recusa de Deus, porque ele é visto como rival e aquele que tolhe a liberdade da pessoa humana. Como discípulos de Jesus, qual deve ser a nossa postura diante do grande desafio da descrença das pessoas e do reduzido número de operários para a colheita? A Igreja sempre atravessou tempos difícieis e de crises dos sacerdotes e religiosos. Precisamos, como cristãos católicos comprometidos com Jesus Cristo, encarar nossas deficiências, nossas debilidades, nossas carências com um forte apelo para uma contínua conversão pessoal e comunitária. É o nosso testemunho como discípulos que impacta e questiona o mundo incrédulo. A sociedade hodierna já está farta de propaganda, palavrório e messianismos enganosos e frustrantes. Hoje faltam testemunhas pessoais de uma fé coerente, testemunhas de Cristo e testemunhas da ternura de Deus, conforme ouvimos na primeira leitura de hoje(Cf. Is 66,13).

Cabe a cada um de nós uma pergunta: Por que nós, cristãos, já não mais arrastamos pessoas para o seguimento de Jesus Cristo? Não será porque nem mesmo entre nós somos capazes de dar um testemunho de comprometimento com Jesus Cristo e testemunho da paz? Algumas pessoas, por qualquer motivo, são capazes de começar uma verdadeira guerra de palavrões e impropérios, capaz de não só machucar a outra pessoa, mas acabar com ela. O Evangelho não é só uma doutrina a ser anunciada, mas é a própria pessoa de jesus! Se estamos dispostos a ser apóstolos que anunciam o Evangelho, precisamos tornar presente no coração de cada pessoa a força salvadora da pessoa de Jesus Cristo e de sua misericórdia pelo nosso testemunho de coerência entre fé e vida. Para que ser um lobo, se podemos ser simplesmente uma pessoa irmã de todos, promotora do amor fraterno, da justiça, da concórdia, da misericórdia, do perdão e da paz? Que nossa fé a Jesus seja motivo de alegria contagiante, que nossa opção destemida e convicta e nosso testemunho de vida possam levar outras pessoas a acreditar e optar também por Jesus Cristo.

Na primeira leitura(Cf. Is 66,10-14c), apresenta-se a palavra de um profeta anônimo, enviado a proclamar o amor de pai e de mãe que Deus tem pelo seu Povo. O profeta é sempre um enviado que, em nome de Deus, consola os homens, liberta-os do medo e acena-lhes com a esperança do mundo novo que está para chegar.

Na segunda leitura(Cf. Gl 6,14-18), o apóstolo São Paulo deixa claro qual o caminho que o apóstolo deve percorrer: não o podem mover interesses de orgulho e de glória, mas apenas o testemunho da cruz – isto é, o testemunho desse Jesus, que amou radicalmente e fez da sua vida um dom a todos. Mesmo no sofrimento, o apóstolo tem de testemunhar, com a própria vida, o amor radical; é daí que nasce a vida nova do Homem Novo.

+ Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG