Escolher a não violência!

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não a violência

Estamos assistindo, com uma vergonhosa leniência ou desinteresse, a violência crescer em todos os âmbitos e em todos os setores. Na noite do dia 21 de setembro um virtuoso sacerdote foi brutalmente assassinado dentro de sua Paróquia em Brasília, DF, por suposto latrocínio. Esse sacerdote abandonou a sua Polônia e veio como missionário fazer o bem e somente o bem para os seus paroquianos em Brasília. Muitas foram as manifestações de carinho e gratidão pelo ministério desse virtuoso sacerdote. Está virando quase uma “normalidade” os assaltos, roubos e assassinatos em templos sagrados. Um lugar consagrado a Deus não é mais respeitado e vilipendiado por pessoas que não tem respeito nem pelo sagrado e nem pela pessoa humana.

Fico estarrecido quando vejo agentes políticos, eleitos para cargos executivos e legislativos, empossados nos mesmos ofícios fazem apologia ao uso ilimitado de armas de fogo, partem para o confronto com quem pensa diferente de si mesmo, promovem uma guerra de desinformações pelas mídias sociais e promovem uma sociedade em que impera, infelizmente, a lei do “olho por olho e dente por dente”.

O Evangelho de Jesus Cristo é resumido em um único mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas e aos próximos como assim mesmo”(Cf. Mt 22,37-38).

Amar a Deus e odiar o seu irmão não é cristão. Amar a Deus e matar o irmão o assassino é reu da sua própria condenação, porque é mandamento expresso de Deus: “Não matarás”!

Mas qual é a causa da violência reinante no Brasil e da escalada do terrorismo, muitas vezes apoiado pela inércia das instituições públicas?

A violência começou a campear com a derrocada da família formada dentro do sacramento e da bênção de Deus da união entre o homem e a mulher. Uma família sólida, alicerçada sobre os valores do Evangelho, educa para a valorização da vida, para a abertura a geração de filhos, com famílias numerosas, sem receio dos desconfortos que a modernidade pode incorrer em famílias numerosas. Nunca vi uma família grande passar dificuldades porque a solidariedade e o compromisso mútuo reinam nestes lares. Quantos pais tem poucos filhos e veem, infelizmente, a dor terrível de ter que sepultar os seus filhos, e ficarem sozinhos no mundo. Será que não seria egoísmo ter poucos filhos?

Na família se faz a educação integral e religiosa dos seus filhos. Hoje muitos pais renunciam a este dever e transferem para as escolas e para o governo um direito inalienável que é a educação dos seus filhos. Na família, na refeição diária, na mesa, no diálogo, na oração, na participação da missa dominical de pais e filhos se solidifica uma personalidade voltada para a defesa da vida, desde a concepção até o seu termo natural, pela valorização do outro, pelo diálogo, pela vida comunitária e pelo respeito à dignidade do ser humano.

Outro fator que nos preocupam é o papel da escola. As escolas não educam. Os professores são desmotivados, quer pela falta de remuneração digna, quer pelo comportamento infeliz e impróprio de alguns alunos que chegam até a agredir os seus professores. Fui professor em rede pública e rede privada: passei o que recebi de meus pais, de meus formadores e dos Seminários em que estudei, o respeito pela vida humana, o respeito pelo que pensa diferente, o diálogo com quem tem uma crença diversa da minha, e sempre preferi escutar mais e falar menos, apostando que a escuta cura, recupera, aproxima e insere as pessoas numa rede de bem, de justiça, de paz e de concórdia.

Nesse sentido quero lembrar as palavras proféticas do Papa Francisco: “Em um mundo como o atual, marcado por guerras e numerosos conflitos, como também pela violência que se manifesta de várias formas na vida cotidiana, escolher a não violência como estilo de vida se torna cada vez mais uma exigência de responsabilidade em todos os níveis, desde a educação familiar ao compromisso social e civil, das atividades políticas às relações internacionais”, ressaltou o Pontífice. Francisco explicou que “trata-se de rejeitar a violência como método de resolução de conflitos e enfrentá-los sempre com o diálogo e a negociação”. O Papa recordou que a Santa Sé “é chamada a transmitir e a testemunhar aqueles valores espirituais e morais que estão fundados na própria natureza do ser humano e da sociedade”. Entre esses valores, “a busca da paz ocupa um lugar preeminente, como demonstra o fato de que, nos últimos cinquenta anos, os Supremos Pontífices tenham dedicado o primeiro dia de janeiro ao Dia da Paz”. Neste sentido, o Bispo de Roma exortou de maneira especial aqueles que desempenham responsabilidades de governo nos países do mundo: “São chamados a assumir na própria consciência e no exercício de suas funções um estilo não violento, que não é sinônimo de fraqueza ou passividade, pelo contrário”.

A pregação de Francisco é a de todos os batizados: “Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir à tentação da vingança, as vítimas da violência podem ser os protagonistas mais credíveis de processos não-violentos de construção da paz”

São Paulo VI foi muito claro: “Se vós quereis ser irmãos, deixai cair as armas das vossas mãos. Não se pode amar com armas ofensivas nas mãos. As armas, sobretudo as terríveis armas que a ciência moderna vos deu, antes mesmo de causarem vítimas e ruínas, engendram maus sonhos, alimentam maus sentimentos, criam pesadelos, desconfianças, sombrias resoluções. Exigem enormes despesas. Detêm os projetos de solidariedade e de útil trabalho. Falseiam a psicologia dos povos”. Em uma homilia em 1970, Paulo VI chegou a citar o tema em uma oração: “Senhor, nós estamos hoje tão armados como nunca estivemos nos séculos passados, e estamos tão apetrechados de instrumentos mortíferos, que podemos, de um momento para o outro, incendiar a terra e destruir talvez a humanidade inteira”, rezou o papa.

Vamos valorizar a vida humana! Vamos respeitar o nosso irmão! Façamos um não sonoro às armas e à violência. Viver nesse mundo só tem sentido se buscarmos a santidade. E ser santo não pode ser violento. Como homens e mulheres da paz vamos caminhar contra a corrente, seguindo o sermão da montanha como norma inspiradora da sua vida: pobreza de espírito e simplicidade de vida; mansidão e não-violência; arrependimento dos pecados cometidos e expiação pelos pecados dos outros; fome e sede de justiça; misericórdia e paixão; pureza de coração; compromisso em favor da paz; e sacrifício pela justiça. Unamos as forças para pregar a não-violência, o perdão e a reconciliação!

Felizes os pacíficos, porque deles é o Reino dos Céus!

+ Eurico dos Santos VelosoArcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG