Falando às paredes

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Falando às paredes
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A pregação da Igreja, muitas vezes, parece ecoar no vazio. Falar de uma doutrina de paz e amor num mundo atribulado pelo ódio racial e guerras constantes soa, quase sempre, como utopia. Por mais coerente que uma proposta de mudanças possa ser, ela se esbarra e se dilui na beligerância e no conflito de interesses que governa a humanidade. Isso não é nenhuma descoberta recente, pois desde os primórdios da civilização assim se comporta o gênero humano. À época de Cristo a situação não era diferente. Imaginem agora, quando a sofisticação das armas e o conflito entre os povos se eleva a um ponto equidistante, que nem Pitágoras seria capaz de calcular…

O que temos é mais que um teorema insolúvel. A realidade em nada se altera com a indiferença humana. Se quisermos uma reação – ou ao menos a separação entre doutrina e realidade, fé e razão, joio e trigo – é preciso por primeiro confrontar ambas as situações.

O medo é a primeira grande parede que impede o avanço de propostas capazes de transformações radicais na ordem dos fatos. Se o mundo faz ouvidos moucos para aceitar desafios de mudanças é porque o descrédito generalizado toma conta e ninguém mais defende aquilo que é sonho de todos, mas só aceitável por uma minoria. A proposta cristã é simpática ao mundo, mas sua prática aparentemente inviável. Será? Onde fracassamos, então? Foi em vão o sacrifício de Cristo?

Tais perguntas, mesmo que feitas à surdina em nossos corações, são fundamentais nesse processo de busca humana por novos dias, novos rumos, novo sentido à vida. Mais do que àqueles que interrogam a Igreja apontando seus erros e fracassos, a resposta a essas questões é de competência primeira dos próprios cristãos.

Estamos, pois, encurralados entre quatro paredes. Marcel Proust um dia escreveu: “Na brusca direção do cotovelo das paredes, eu sentia as restrições impostas pelo mar e a parcimônia do solo”.

Quem nunca se sentiu assim, diante dos desafios, da impossibilidade de apontar soluções ou buscar outros rumos para a realidade que nos oprime? O mar é símbolo dos mistérios – gestor dos perigos, mas também provedor de riquezas e descobertas maravilhosas – que sempre rondou a curiosidade humana.

Já a terra, o solo onde pisamos e construímos nossa história, esta nos afeta por primeiro, posto a defendermos com unhas e dentes, seja ela o pequeno território de nossas posses e interesses ou a nação que herdamos de nossos antepassados e desejamos transferi-la integralmente aos nossos filhos e netos.

Como vemos, tudo que temos e somos possui um vínculo afetivo, uma ilusão de posse. Até nossos sonhos, nossas crenças, nossas ilusões. Dessa forma, nossa fé. Um detalhe nos escapa: separar águas e terras, o mar e o solo (Gn 1,9) é o primeiro passo.

Simbolicamente, é isso que ordena o aparente caos do universo. Cada coisa, cada ato em seu devido tempo e lugar. A Palavra de Deus, desde o princípio, é propiciadora de nova ordem, de transformações. Não nos compete cobrar seus resultados imediatos, mas tão somente proclamá-la, divulga-la, insistir em sua propagação.

Assim, nunca falaremos às paredes, pois estas deixam de existir quando nossa fé vai além das fronteiras que nos separam. Poderemos não colher de imediato, mas semeando hoje, colher-se-á amanhã. Falta-nos essa compreensão da paciência histórica de Deus para com a humanidade.

O temor e a insegurança nos afetam diretamente, quando hesitamos em proclamar sua Verdade e anunciar ao mundo novos tempos, novos dias… Enquanto houver um cristão inseguro em sua missão, enquanto a dúvida for maior que essa certeza de mudanças, ah!  – continuaremos claudicando em nossos gestos de amor à vida, aos semelhantes.

“No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor” (1Jo 4, 18).