Finados

140
finados

Em Cristo brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível. (Do Prefácio dos fiéis defuntos).

O Dia dos Finados tem por objetivo principal relembrar a memória dos falecidos, dos entes queridos que já se foram, e, consequentemente rezar por eles, por aqueles que padecem no purgatório. No dia 1º (no Brasil passa para o domingo seguinte) rezamos pedindo a intercessão da Igreja Triunfante na solenidade de Todos os Santos.  No dia 2 de novembro rezamos por aqueles que estão no caminho de alcançar a glória eterna, mas passam pelo estado de purificação. Em nossa arquidiocese, além das celebrações nas igrejas, teremos missas e evangelização em todos os cemitérios da cidade. É a igreja em saída presente onde estão as pessoas anunciando, que em meio às dores e saudades temos esperança e confiança na vida que não termina com a morte.

Desde a época do cristianismo primitivo os cristãos rezavam por seus mortos, em especial pelos mártires, no local onde estes eram frequentemente enterrados: nas catacumbas subterrâneas da cidade de Roma. A oração pelos que já morreram é uma prática de várias religiões e que o cristianismo manteve. Documentos e monumentos dos primeiros séculos da nossa era já testemunham a prática entre os cristãos. Há túmulos cristãos dos séculos II e III que trazem orações pelos falecidos ou inscrições como: “Que cada amigo que veja isso reze por mim.”

 O costume de rezar pelos mortos foi sendo introduzido paulatinamente na liturgia da Igreja Católica. O principal responsável pela instituição de uma data específica dedicada à alma dos mortos foi o monge beneditino Odilo da Abadia Beneditina de Cluny, na França.

Odilo (962-1049) tornou-se abade de Cluny, na Borgonha, França, que era uma das principais abadias construídas no mundo medieval e responsável por importantes reformas no clero no período da Baixa Idade Média. Em 02 de novembro de 998, Odilo instituiu aos membros de sua abadia e a todos aqueles que seguiam a Ordem Beneditina a obrigatoriedade de se rezar pelos mortos. A partir do século XII, essa data popularizou-se em todo o mundo cristão medieval como o Dia de Finados.

Apesar do processo de secularização e laicização que o mundo ocidental tem passado desde a entrada da modernidade, o dia 02 de novembro ainda é identificado como sendo um dia específico para se meditar e rezar pelos mortos. Milhões de pessoas cumprem o ritual de ir até os cemitérios levar flores para depositar nos túmulos em memória dos que se foram; outras levam também velas e, principalmente, fazem orações, cânticos etc.

Além do caráter afetivo que esta memória tem, a celebração é uma importante ocasião de olharmos para a realidade da morte, inevitável, mas um olhar para ela a partir da perspectiva da fé. O Catecismo da Igreja Católica, ao tratar da realidade da morte e do morrer em Cristo (n. 1006), aponta que a morte é o termo da vida terrestre, que esta é consequência do pecado e que a realidade da morte foi transformada por Cristo Jesus:

É em face da morte que o enigma da condição humana atinge seu ponto mais alto”. Num certo sentido, a morte do corpo é natural: mas sabemos pela fé que a morte é, de fato, salário do pecado (Rm 6, 23). E para aqueles que morrem na graça de Cristo, é uma participação na morte do Senhor, a fim de poder participar na sua ressurreição”.

A morte é o fim da peregrinação terrena do homem, do tempo de graça e misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida terrena segundo o plano divino e para decidir o seu destino último. Quando acabar a nossa vida sobre a terra, que é só uma, não voltaremos a outras vidas terrenas: os homens morrem uma só vez (Heb 9, 27).

Na comemoração dos Fiéis Defuntos fazemos memória da esperança da vida que nasce da morte, a partir do mistério pascal de Cristo Jesus. Em Cristo Jesus abre-se uma nova perspectiva, onde a morte já não é mais o fim fatídico e desesperador, mas a passagem para uma realidade nova de plenitude de vida em Deus. Nascemos para viver eternamente, e uma vez que os nossos olhos se fecham aqui neste mundo, nós o abriremos para contemplar a Deus.

A morte não é um salto no vazio, mas para os braços de Deus: é o encontro pessoal com Ele, para habitar com Ele no amor e na alegria da Sua amizade. O cristão autêntico não teme, por isso, a morte; pelo contrário: considerando que, enquanto vivemos na Terra “vivemos longe do Senhor”, repete São Paulo: “desejamos sair deste corpo para habitar com o Senhor”. (2Cor 5, 6.8). Não se trata de exaltar a morte, mas considerá-la como realmente é no projeto de Deus: o nascimento para a vida eterna.

Celebrando a comemoração dos fiéis defuntos em um cemitério das periferias de Roma, o Papa Francisco assim comentava sobre a realidade celebrada: O sentimento da tristeza, o cemitério é triste, recorda os nossos entes queridos que morreram e nos recorda o futuro: a morte. Mas nesta tristeza trazemos flores como um sinal de esperança, também possa dizer de festa mais adiante. Esta tristeza se mistura com a esperança. É o que todos nós sentimos hoje nesta celebração. A recordação de nossos entes queridos e a esperança. Mas também sentimos que essa esperança se ajuda porque também nós devemos fazer este caminho, todos nós, antes ou depois, mas todos. Com dor, mais dor ou menos dor, mas com a flor da esperança. Com aquele fio forte ancorado ao lado de lá. Esta âncora, a esperança da ressurreição não decepciona”.

Rezemos por nossos irmãos falecidos, ao mesmo tempo que aproveitemos o hoje da nossa existência como momento mais que oportuno para buscar o céu, para buscar as coisas do alto e deixar que a ação de Deus em nós nos conduza à Eterna Bem-aventurança. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte.

Senhor Jesus Cristo, nosso Redentor,

que voluntariamente Vos oferecestes à morte,

para que todos os homens sejam salvos e passem da morte à vida,

olhai com bondade para os vossos servos

que choram na sua dor e invocam a vossa clemência

pelos seus queridos defuntos.

Senhor, infinitamente santo e misericordioso,

perdoai os seus pecados,

Vós que, morrendo na cruz, abristes aos fiéis as portas da vida,

e não permitais que estes nossos irmãos se separem de Vós,

mas, para glória do vosso nome,

acolhei-os na vossa morada de luz, de felicidade e de paz.

Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro