A guerra das possibilidades

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Se analisarmos com frieza a história da humanidade, descobriremos uma surpreendente revelação: ela nos é contada de guerra em guerra. Todas suas maiores conquistas fluem de sangrentos combates e ardilosas disputas entre povos, tribos ou mesmo indivíduos. A evolução se deu à custa de muitas lutas e entre históricas guerras. Jogos olímpicos sempre existiram como instrumentos de medição de forças e supremacia. O panteão do Olimpo não era única e exclusivamente aquela montanha grega a abrigar os maiores deuses das batalhas humanas, mas tinha ali um bom exemplo da aguerrida filosofia que o mundo herdou como princípio de sobrevivência. Diria Platão: “só os mortos conhecem o fim da guerra”.

Assim sendo, uma afirmativa atribuída ao papa, nesta conturbada semana de frios atentados à vida (inclusive a um padre francês friamente degolado enquanto celebrava a Eucaristia) constata o que muitos já perceberam: uma terceira guerra está em curso. Só que fragmentada e terrivelmente aterradora, pois nunca se sabe qual o próximo alvo e de que forma se dará. Estamos em guerra. A pior de todas, pois o inimigo não tem cara, nem nome, nem motivação plausível. Aqui e ali, o terrorismo prova sua covardia ao atacar indiscriminadamente pessoas e comunidades e justificar seus atos como “purificação” das crenças humanas. Isso tem outro nome: ignorância. Quem, em nome de uma fé, pratica a violência, ou perdeu-se no labirinto de uma espiritualidade demoníaca ou nunca experimentou o verdadeiro amor que a fé proporciona. Esconde-se na covardia das próprias frustrações.

A fé nunca pode ser atribuída a elementos vazios de sensibilidade para com a vida. Ao contrário, é ela a primeira motivadora da espiritualidade humana. Fé e vida caminham juntas. Qualquer atributo de espiritualidade provém da gratidão e do respeito que se dá à vida, nunca às ações contrarias a ela. Portanto, nenhum movimento e atitude contrários à defesa incondicional da vida pode se considerar princípio de fé.

A raiz desses conflitos é muito mais de cunho sócio econômico do que frutos de uma aparente defesa de fé. Esse pano de fundo vem da ausência de possibilidades entre raças, povos e nações histórica e culturalmente desiguais. Uns com muito e outros sem nada. Alguns muito à frente em suas conquistas e outros à míngua com seus desafios. O contraste entre classes sociais, entre culturas díspares e entre nações estruturalmente desenvolvidas frente a outras desmilinguidas do básico, provoca conflitos. Estes a inveja – muitas vezes negada com justificativas culturais ou mesmo religiosas – que é o estopim primeiro de qualquer ato de violência e guerra. Não existiriam guerras se as possibilidades humanas se equiparassem um pouco mais. Se houvesse no planeta uma cultura sem fronteiras, sem fanatismo, sem ideologias, sem disputas, a história seria outra. Essa é a raiz da árvore que está crescendo e fazendo sombras ao convalido espírito de fraternidade humana. O diagnóstico está feito: a guerra aí está. Todavia, nem por isso a esperança vai morrer. Nessa catarse de conflitos resta a possibilidade de se deflagrar outra guerra, mais humana e justa, aquela que esquecemos no baú do conformismo e do materialismo exacerbado, ou seja, o bom combate da fé. Quando a humanidade se der conta do valor dessa arma, que nos ensina a olhar o outro com mais compaixão, solidariedade e humanismo; que não vê raça, cor ou credo, mas a essência de um igual nas lutas e esperanças cotidianas, quem sabe, descubramos juntos a alegria de viver. Quem sabe, não possamos concluir essa viagem terrena e repetir como Paulo: “Combati o bom combate, guardei minha fé”… Essa é a única possibilidade de uma verdadeira guerra santa.