Intolerância zero

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Tanto o pobre pastor americano que queimou um exemplar do livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão, quanto os seguidores afegãos de Alá que retaliam a ofensa matando ocidentais e queimando bandeiras ou atacando embaixadas, agiram e agem como cegos, tristes cegos. A intolerância não condiz com a vontade de Deus, nunca. Assim, com gestos de intolerância aqui, protestos ali e revolta acolá, o mundo caminha para um precipício sem igual.

Lembro-me, com tristeza, da intolerância que um dia maculou o seio da comunidade cristã, pois que aos católicos era proibido o uso de Bíblias evangélicas e aos evangélicos, vice-versa. Ainda perduram por aí resquícios dessa intolerância religiosa, que nada constrói e só contribui para nos afastar mais e mais uns dos outros, nunca proporcionando o diálogo sereno e exemplar que a fé cristã nos sugere.  Sabemos por experiência com a vontade de Deus que tais atitudes estão ausentes de qualquer livro sagrado, pois que em todos eles o Pai se nos revela como ágape, amor pleno, total, independentemente da facção religiosa à qual nos inserimos, seja ela cristã, muçulmana, judaica ou mesmo das correntes do livre pensamento. Isso não muda, não pode mudar o caráter amoroso do Pai Criador.

O importante é que as três grandes religiões monoteístas nos ensinam o respeito e a crença num único Deus, ao qual devemos obediência e respeito aos seus ensinamentos, sejam estes revelados por Jesus, Maomé ou Moisés. Os cinco pilares do Islã não diferem em nada dos pilares da fé cristã ou judaica. Exigem a profissão de fé, a oração, o jejum, a solidariedade e a peregrinação ou ao menos o olhar constante aos pontos de referências sagrados de cada religião. Curiosamente, as três religiões têm em comum uma mesma cidade santa, Jerusalém. Lá Maomé subiu ao céu para se encontrar com Moisés e Jesus. Lá Jesus ressuscitou dos mortos. Lá Abraão ergueu seu grande altar para sacrificar seu filho único, Isaac. Ou seja, a Cidade Santa, palco das grandes revelações divinas – em especial para os cristãos cenário do Calvário (morte) e Ressurreição (vida plena) de Jesus – não pode continuar como ponto de divergências que afetam ainda hoje a Paz entre os homens, mas deveria ser (e há de ser) o ponto de confluência de todas as questões que dificultam a harmonia entre os povos.

Não por acaso, o tema central do Alcorão é o duplo movimento do homem em direção a Deus e Deus em direção ao homem. “Na verdade, somos de Deus e a Ele retornamos” (II,156). O tema central desse importante livro sagrado é exatamente a prática da bondade, generosidade e justiça no relacionamento social. Em nada difere das propostas bíblicas ou do tora judaico. Também registra passagens do Antigo Testamento judaico-cristão e prega a vida após a morte, o Juízo Final e a ressurreição. Como vemos, temos muito em comum.

Notícias, como as que hoje nos dão conta das retaliações religiosas no mundo, ferem, com certeza, o coração do Pai que temos em comum. Não podemos entender e aceitar tais divisões, donde emanam atitudes mal-cheirosas que nunca partiram ou partiriam de Deus: vingança, ódio, fanatismo. Isso é próprio do humano sem Deus. Isso só denigre a ação missionária de qualquer religião. Afasta e dificulta o ser humano de entender nossa fé, nosso mínimo esforço de dizer ao mundo que Deus nos ama e deseja a salvação de todos, independentemente de qualquer credo ou profissão religiosa. Shallon, meu irmão judeu! Alá nos guarde! Deus seja louvado!