Leitura Orante

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Depois de ter, por muitas vezes e de muitos modos, falado aos Pais, pelos profetas, Deus, nestes últimos dias falou a nós por meio do Filho a quem estabeleceu como herdeiro de todas as coisas pelo qual também fez o mundo.” (Cf. Hb 1,1)

Você já passou por aquele tipo de situação em que se tenta falar com alguém e este alguém não lhe dá a atenção necessária? Pois bem, essa situação ressalta a necessidade da atenção na comunicação. Estamos no mês da Bíblia, mês em que se lembra com ênfase a importância da Bíblia em nossa fé. Porém, algumas vezes, quando se fala da Bíblia, se recorre a um monte de termos e elementos que falam da sua importância apenas indiretamente: a Palavra, os Textos Sagrados, o Antigo Testamento, o Novo Testamento, os Livros Sagrados, etc. Não podemos nos esquecer do principal autor dessas palavras que é o próprio Deus. Este mês não é apenas o mês de um livro. É o mês que nos lembra a revelação de Deus também através deste bendito livro.

A Bíblia é comunicação, seja do povo do Antigo Testamento como também o povo de hoje, seja do escritor com o leitor, mas principalmente é comunicação de Deus com seu povo e do povo com seu Deus. Antes da Bíblia ser aula de história, ser testamento dos feitos de Deus na história humana, ser patrimônio da fé judaica e cristã, a Bíblia é atual e constante comunicar de Deus. E, em se tratando do comunicar de Deus, tal diálogo torna-se algo bastante sério. Deus já falou ao ser humano diversas vezes e de diversos modos, porém, nos últimos tempos (um pouco mais que 2.000 anos), sua comunicação ficou mais evidente. A Bíblia, em Cristo, tornou-se uma comunicação muito íntima de Deus, pois agora Ele fala, mas também toca, olha, ouve, cheira, degusta e ama.

Assim, entenda-se a voz de Deus não apenas nas letras, no papel, no livro, mas no mundo. A comunicação de Deus está em todo lugar. Ele sempre fala à sua criatura, mas para entender essa fala é preciso ter este livro aberto (a Bíblia) e o coração disposto a ouvir. Se por um lado a comunicação de Deus Pai através do Filho é mais personalizada e explícita, por outro, essa comunicação através da Bíblia exige de nós uma atenção mais dedicada. Sendo assim, um modo de prestar atenção naquilo que Deus nos fala na Bíblia não é apenas “lê-la”, mas é, principalmente, “rezá-la”. Isso porque a palavra puramente lida precisa da atualização através do ensinamento da Igreja (magistério e Tradição) e do toque do Espírito Santo que ensina a ouvir do jeito certo.

Na Igreja, de antiga tradição, agora retomada, temos incentivado a comunicação com Deus através da Bíblia por meio da “Leitura Orante”, chamada de Lectio Divina na tradição da Igreja. A Leitura Orante é um jeito de ler, conhecer, meditar, rezar, contemplar e agir conforme a comunicação de Deus através da Bíblia. Todos os cristãos leigos, religiosos e sacerdotes são chamados a praticar a Leitura Orante. Quem sabe, durante esse mês da Bíblia nos convenceremos a buscar conhecer melhor o que é esse método de comunicação com Deus e, assim, da próxima vez que Ele falar talvez você esteja prestando atenção. Porque… quem fala quer ser ouvido…

A Lectio Divina vem do latim e tem como significado, “leitura divina”, “leitura espiritual” ou ainda “leitura orante da Bíblia”, é um alimento necessário para a nossa vida espiritual. A partir desta oração, conscientes do plano de Deus e a sua vontade, pode-se produzir os frutos espirituais necessários para a salvação. A Lectio Divina é deixar-se envolver pelo plano da Salvação de Deus. Os princípios da Lectio Divina foram expressos por volta do ano 220 e praticados por monges católicos, especialmente as regras monásticas dos santos: Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento. Santa Terezinha Do Menino Jesus dizia, em período de aridez espiritual, que quando os livros espirituais não lhe diziam mais nada, ela busca no Evangelho o alimento de sua alma.

O Concílio Ecumênico Vaticano II, em seu Decreto Dei Verbum 25, ratificou e promoveu com todo o peso de sua autoridade, a restauração da Lectio Divina, que teve um período de esquecimento por vários séculos na Igreja. O Concílio exorta igualmente, com ardor e insistência, a todos os fiéis cristãos, especialmente aos religiosos, que, pela frequente leitura das divinas Escrituras, alcancem esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo (Cf. Fl 3,8). Porquanto “ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo” (Cf. São Jerônimo, Comm. In Is., prol).  

Portanto, diante deste mês da Bíblia e do grande patrimônio da nossa Igreja que é este método de Oração da Lectio Divina, desejo a todos que ao lerem este artigo comecem a tomar gosto pela Leitura Orante da Palavra de Deus, pois, nós sabemos que a oração é um dos alimentos da alma que obtemos forças para enfrentar tantas adversidades em nossa caminhada. Que Deus abençoe a todos!

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ