Maria e a missão

341
Maria - Magnificat

Não compreendo cristianismo sem Maria. Por mais que se negue seu protagonismo na vida missionária da Igreja, esta não existiria sem seu sim, sua disponibilidade serviçal ao projeto de Deus em sua vida. Foi Maria o embrião de uma proposta de amor de Deus às suas criaturas. Sem ela, a história cristã não aconteceria. Portanto, fica claro a qualquer cristão mais consciente o valor de Maria na vida da Igreja; esta que se deixou usar por Deus para que Jesus se inserisse em nossa caminhada.

Cristão que nega essa maternidade ou menospreza sua importância, nega também seu Filho.  Não há como separar a figura da mãe do encanto e beleza de sua criança. Em tudo se assemelham. Até na missão que Deus lhes reservou. Tal mãe, tal filho.

Assim refletir é resgatar os passos e atitudes de uma mulher determinada a cumprir sua missão em todos os detalhes. Não foi ela a primeira alma viva a acolher em si própria a vontade de Deus em sua plenitude? “Faça-se em mim segundo a sua vontade”? Não foi ela a primeira missionária a anunciar pessoalmente à família de João Batista, o precursor, que o Reino de Deus estava próximo, ganhava forma em seu ventre? “Você é bendita entre as mulheres, e é bendito o fruto do seu ventre!”, exclamou-lhe Isabel ao vê-la portadora da mais bela gravidez do gênero humano. Não foi ela a paciente zeladora e primeira grande admiradora de seu menino preocupado em ensinar naquele templo, entre os doutores? “Não sabeis que devo preocupar-me com as coisas do meu Pai”? Não foi ela a primeira intercessora do grande milagre de um novo tempo (o vinho novo das bodas), cuja realização só se deu graças à sua intervenção? “Façam tudo o que ele vos disser…” Não foi ela a mulher paciente que o ouvia à distância, dando espaço às multidões que o cercavam e renunciando sempre aos direitos que a própria maternidade lhe concedia? “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática”. Como deve ter lhe sido doloroso ouvir essas palavras!

Ser mãe é renunciar. É criar para o mundo, mesmo à distância. É olhar ao longe um rebento que cresce, que verga, que adquire forças e um dia parte, sem olhar para trás. Mas ao Filho sempre resta a certeza de que aquele colo que o embalou, aqueles seios que o amamentaram, aquele sorriso que aliviava suas dores, aquele olhar reluzente de esperança e de ânimos, não lhe faltariam nunca. A mãe, de uma forma ou de outra, tinha endereço fixo em seu coração e velaria por ele em qualquer circunstância, em qualquer necessidade. O seu Filho já não mais lhe pertencia. Mas as multidões lhe davam graças: “Feliz o ventre que te carregou, e os seios que te amamentaram”. Ou seja: obrigado mãe pelo presente que nos destes!

A obra missionária da Igreja nasceu do sim de Maria. Por isso é ela a estrela da evangelização, a primeira grande missionária da fé nascida de seu ventre, a mãe de Deus e da Igreja… Sem ela não teríamos a Redenção. Tanto que o próprio Redentor nos presenteou com sua maternidade, confiando-a a proteção do discípulo que mais amava: “Mulher, eis aí o seu filho”. Depois disse ao bom discípulo, aquele que nos representou aos pés da cruz: “Eis aí a sua mãe”.  Esse é o detalhe que nos falta na prática da devoção mariana. Não questão de desvio de foco da obra redentora – como nos acusam alguns – mas preservação, proteção, acolhimento e gratidão a tudo e por tudo que Maria nos proporcionou e continua a nos proporcionar com sua presença e bênçãos maternais. Foi após a consumação de tudo, da maior dádiva de amor que Deus nos fez, foi nesta hora insana, porém magnânima que “o discípulo a recebeu em sua casa”. A missão de Maria continua em nosso meio, nossa casa comum.