O Evangelho dentro do Evangelho

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O Evangelho dentro do Evangelho

Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem

A mensagem bíblica em  – Lc 15, 1-32  está centrada na leitura das três parábolas da misericórdia de Lucas: a ovelha perdida, a dracma perdida, o pai pródigo e seus dois filhos. Este trecho evangélico de Lucas é considerado “o Evangelho dentro do Evangelho”. Põe às claras o coração do Evangelho e o mistério mais profundo de Deus, a misericórdia. Como se deduz da palavra “misericórdia”, do latim, a “pobreza do coração”, este vocábulo revela o que é o coração do bom Deus, um coração condoído com os pobres, feridos, doentes e atribulados, e movido a ir ao seu encontro para curá-los e libertá-los.

Como disse o Papa São João Paulo II, na “Dives in Misericordia” (Rico em Misericórdia), a misericórdia é “o mais admirável atributo do Criador e do Redentor” (DM, 2). O Papa Francisco, na “Misericordiae Vultus” (O Rosto da Misericórdia), bula de lançamento do Ano da Misericórdia, diz que “Do coração da Trindade, do íntimo mais profundo do mistério de Deus, brota e flui incessantemente a grande torrente da misericórdia” (MV, 25).  Este é o mistério do Deus Uno e Trino: cria do nada todas as coisas, liberta e salva, ama e santifica; tudo com amor misericordioso.

O Papa Francisco ressalta a pessoa de Jesus Cristo como o “rosto da misericórdia do Pai”, frisando que a “misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré”… “Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus” (MV, 1).

De fato, os sinais que Jesus realizou, as suas ações concretas em favor dos pobres e sofredores, narrados abundantemente nos Evangelhos, são as provas cabais da verdade da sua mensagem de libertação e salvação, em outras palavras da verdade sobre o anúncio da misericórdia divina que Ele protagonizou. O Papa Emérito, Bento XVI, comentando a parábola do Bom Samaritano, escreveu que “Deus, o distante, fez-se próximo em Jesus Cristo” (Jesus de Nazaré, pg. 178).

O Apóstolo João nos garante que “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo aquele que crer tenha nele a vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3,16-17).

Pois bem, as três parábolas de hoje, Jesus as concebeu e as contou a fim de revelar o mistério insondável do amor do Pai, da sua misericórdia para com a humanidade. Com estas parábolas, Jesus põe em relevo todo o desvelo do Pai que se movimenta em direção aos perdidos na vida, aos discriminados sociais, aos largados à própria sorte ou por causa dos pecados ou dos preconceitos ou dos abandonos.

Deus é assim como o homem que vai atrás da ovelha que se perde, como a mulher que varre a casa até encontrar a moeda de prata, como o pai que perdoa o filho arrependido e o acolhe de volta em sua casa e faz grande festa, porque o filho que estava morto vive, que estava perdido foi encontrado.

Jesus veio buscar e salvar os que estavam perdidos, os pecadores. Noutra oportunidade à do Evangelho de hoje, mas num contexto bem parecido com este, em que Ele, com seus discípulos, estava comendo na casa de Levi, em meio a muitos publicanos e pecadores, respondeu aos mesmos fariseus e escribas que o criticavam porque Ele acolhe os pecadores e faz refeição com eles, dizendo: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes.

Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mc 2,17). O “sistema da misericórdia” diferentemente do “sistema da lei” da Antiga Aliança estava sendo apresentado por Jesus, agora enraizado e alicerçado no novo mandamento, o amor misericordioso.

Assim como fomos criados à imagem e semelhança de Deus e como o seu mais sublime atributo é a misericórdia, então, por simples dedução – como a que Jesus fez pela revelação do novo mandamento – a caridade, o amor, a misericórdia passam a ser também o mais importante atributo humano.

A misericórdia deve ser a marca dos cristãos, mediante a qual todos os conhecerão como discípulos de Jesus Cristo (cf. Mt 5,7). Por conseguinte, Jesus, dirigindo-se aos seus discípulos, convidou-os: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, para não serdes julgados; não condeneis, para não serdes condenados; perdoai, e vos será perdoado.

Dai, e vos será dado; será derramada no vosso regaço uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante, pois com a medida com que medirdes sereis medidos também” (Lc 6,36-38). Quem assim viver será feliz, Jesus o garantiu nas Bem-aventuranças: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.

O Papa Francisco começou o seu ministério, em 2013, fazendo o seguinte convite: “Irmãos e irmãs, o rosto de Deus é o de um pai misericordioso, que sempre tem paciência. (…) Um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo. Precisamos compreender bem esta misericórdia de Deus, este Pai misericordioso que tem tanta paciência… Não esqueçamos esta verdade: Deus nunca se cansa de nos perdoar; nunca! Mas, nós às vezes cansamo-nos de pedir perdão. Não nos cansemos jamais, nunca nos cansemos!”.

Ah! Se compreendêssemos bem o que significam estas palavras do Papa Francisco: “Misericórdia é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.” (n. 2).

Não é por menos que Francisco ficará conhecido na história como o Papa da Misericórdia.  Seus gestos e sua pessoa confirmam o que ele fala por palavras.

Dom Caetano Ferrari
Diocese de Bauru