O moinho da prosperidade

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A riqueza é fruto de nosso trabalho temos que plantar para colher

Conta velha lenda que um pai moribundo chamou a si os dois filhos e lhes disse: Tenho um segredo de prosperidade, mas esta só acontecerá se vocês reformarem o velho moinho da fazenda. Toda farinha ali produzida pode se transformar em ouro. Basta fazê-lo funcionar com a maior quantidade possível de trigo!

Mal sepultaram o velho pai, os dois ambiciosos herdeiros puseram a mão na massa (ou melhor: nas ferramentas de trabalho), plantando vastos alqueires de trigo e reformando inteiramente o velho moinho, para vê-lo produzir ouro em abundância. Anos se passaram, sem que a branca farinha ali produzida brilhasse como ouro, como lhes dissera o pai. Ao vendê-la, depois de abarrotados os celeiros, viram enfim as reluzentes moedas de ouro, o quinhão equivalente ao fruto de seus trabalhos. Compreenderam então a última lição paterna: só o trabalho faz milagres!

Esse conto singelo e quase infantil parece perder sua força no mundo globalizado. Produção hoje não é tudo. É preciso consumo. É preciso mercado, preço justo, salário compatível, qualidade, certificado disso e daquilo, incentivos fiscais, facilidades aduaneiras, logística (meios de transportes adequados e eficientes), subsídios e outras balelas mais. Plantar não resolve. Nem colher, nem vender…

Assim, nesse emaranhado e voraz mercado, o trabalho individual, muitas vezes, perde valor diante do “trabalho” especulativo, do simples jogo das bolsas e dos pregões, que ditam as regras e fazem tinir as moedas mais fortes, conquanto as mais pobres sucumbem quais moribundas sem direitos a qualquer honra ou respeito à função que pensam desempenhar no mundo. Não dignificam o trabalho dos mais fracos.

O mercado de trabalho tende a ser uma atividade virtual, quase fantasmagórica diante do sobe e desce da dita bolsa, – que mais se parece com uma bolha de sabão – que hoje dá as cartas no mundo financeiro. Será que o suor do trabalhador braçal virou poesia, lenda do passado? Ou o velho moinho assumiu de vez seu papel no mundo de D. Quixote?

O fato é que, enquanto não retomarmos a engrenagem do mundo de trabalho de maneira justa, enquanto a mão de obra básica para qualquer produção não se sentir parte de uma atividade essencial na cadeia evolutiva da prosperidade humana, nunca essa prosperidade será completa. “Nada há de melhor para o homem do que alegrar-se com o fruto de seus trabalhos. Esta é a parte que lhe toca” (Ecle 3,22). Todavia, há uma grave distorção social em curso, que exclui dessa lógica os países subdesenvolvidos, o trabalho dos pobres.

O mundo rico se esquece de um alerta bíblico: “Mais vale um pobre que caminha na integridade do que um rico em caminhos tortuosos” (Prov.28,6).

Prosperidade não é a simples contabilidade positiva dos bens, do luxo, das riquezas e da soberania conquistada à custa do sacrifício de muitos. Isso é usurpação. Isso é fruto do velho moinho da ganância, donde a farinha triturada não reluz aos olhos da justiça, nem possui a qualidade das bênçãos celestiais.

Prosperidade assim não tem segredo algum: qualquer espertinho do mundo do crime é capaz de obtê-la. Prosperidade plena transforma a farinha das riquezas terrenas (aquelas que fogem por entre os dedos) em moedas preciosas que se acumulam nos céus (aquelas que exalam de nossas almas e alegram o coração do Pai).

É hora de reformar nossos moinhos, reformular nossos conceitos de prosperidade, riqueza, sucesso… Porque a verdadeira prosperidade não nos escraviza aos bens conquistados, mas liberta. Porque nossa maior herança vem dos céus, não da terra. “Portanto, já não és escravo, mas filho, e se és filho, então também herdeiro por Deus” (Gal 4,7). Mãos à obra. O moinho do Pai precisa girar, produzir os milagres da verdadeira prosperidade, o pão dos céus entre nós.