Oração não coisa de bicho, é coisa de gente!

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A vida interior não é aquela que só falamos para Deus, mas deixamos que Deus nos fale, que Deus com liberdade se manifeste a nós. Daí brota uma séria pergunta: Como tem sido a sua experiência pessoal com um Deus que é Pai? De confiança, de respeito, de afeto? Se assim for, realiza-se na vida do orante as palavras do salmista (no Sl 130): “Paz e serenidade vieram para ficar”. E essa experiência forte nos leva a viver como ressuscitados, buscando as coisas do alto, como pessoas portadoras da vida de Jesus. Só assim levaremos vida, anunciaremos a vida na morte do povo.

Só assim, a confiança se alicerçará no pavimento sólido da esperança, com Jesus à frente. A vida da Trindade é toda ela entrega e relacionamento e, por conseguinte, há um vínculo indissociável entre o amor da Trindade e o amor ao próximo. Em geral a experiência da religião é a experiência do medo, do fascínio e do rito.

Cabe, ante isso, uns questionamentos: e o coração? Onde está? Tudo se reduz a um mero fanatismo? “Esse povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Há que haver um esforço em não ficar no rito, mas ir ao mistério (para não transformar a celebração em um teatro). Nessa vivência pessoal de encontro, os ídolos devem cair, ser abatidos, ante a glória e a verdade do Deus único e verdadeiro.

Ante o Senhor que diz “Eu sou Iahweh”, pergunta-se: “Quais são os teus ídolos?” Rompidas as barreiras dos ídolos, e sempre dando passos no sentido de buscar a glória de Deus tão somente, o coração do missionário e do pastor se abre aos outros, na bondade, na caridade pastoral. “O homem que lhe pede fogo para acender o cigarro, vai lhe pedir Deus, dependendo de como é acolhido”, dizia Michael Quoist. Nossa maneira de caminhar no amor está revelando Deus? Hoje cabe também a pergunta que Jesus fez a Pedro: “Você me ama mais que os outros”? O amor a Deus está acima do amor ou do afeto nutrido a toda e qualquer criatura? O contexto moderno nos faz lembrar que os ateus são mais negadores de um tipo de religião o que de Deus. Abrir-se aos outros é fruto deste encontro com esse Deus que vem ao encontro, que se desinstala. Na medida em que a gente fica numa capsula do nosso egoísmo, a gente se amesquinha.

Experimentar Deus: algo que nunca pode deixar de acontecer, não pode cessar, pois “orar sem cessar” (1Ts 5, 17), no comentário de Agostinho, significa manter o desejo de ser orante. A oração, como dizia Teresa de Ávila, exige determinada determinação. Assim é que se acolhe a SS. Trindade no templo da nossa vida. Isso instaura convicções profundas sobre o ser templo do Espírito, sua habitação. Para rezar é preciso perseverar.

Tendo presente o que foi afirmado, é fundamental entender que rezar é questão de honestidade, é um ato de confiança. E nessa confiança, a oração vai se revestindo de simplicidade, sem tanto barulho, sem alardes. Jesus nos manda rezar (Mt 7, 23). É como disse um certo pároco de roça: é viver a oração “do cachorro”: estar sempre aos pés do dono e acolher o osso que ele nos dá, ou a ração, ou o que for. Somos o que rezamos e como rezamos.

No dizer de Karl Rahner “O cristão do século XXI ou será um místico ou não será um cristão”. Jesus sobe a montanha e reza (ver Lc 4, 16). Este é o nosso modelo, esse é o nosso referencial. Para, desse referencial colher as importantes coordenadas de vida interior, é preciso prestar atenção para a necessidade de viver esse aconchego com Jesus na Eucaristia, na Sagrada Escritura, nesse estar com Ele de forma simples, confiante, silenciosa, acolhendo essa solidão povoada. Viver na humildade essa dependência de Deus o que me leva a rezar como indigente, como um pobre, um dependente. Essa oração me vertebra, me radiografa e muda minha vida. Você reza? Reza como um indigente?

A vida tem que entrar na oração, rezar a vida, rezar a história, rezar os acontecimentos concretos do dia a dia. Deixe Jesus orar no templo do seu coração para que a sua vida cristã aconteça e se alimente. Cristão que não reza é bicho e cristão. Você sabe dar nomes às dificuldades da sua vida de oração? Que tem feito para superá-las? O que lhe impede de rezar autenticamente? Que frutos a oração tem produzido em sua vida?

Pe. Antonio Marcos Chagas