Outra margem do lago

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Outra margem do lago

Estamos habituados a cevar nossos pesqueiros e neles nos acomodar. Ali, acreditamos, estão os melhores peixes, já viciados com nosso trato constante e nossa visita frequente. Tanto nós, quanto eles, não mais consideramos as possibilidades de mudanças.  Se o resultado da pesca traiçoeira ou do alimento fácil diminuir, atribui-se o fracasso ao tempo, às águas turvas ou mesmo à lua imprópria, o mês, a época. Tanto o pescador há de insistir em voltar ao pesqueiro, quanto o peixe fará incursões constantes ao local onde encontra alimento fácil. Mas há outras margens, outros locais de possibilidades e resultados mais positivos que na ceva bem tratada.

Tal ensinamento deriva da personalidade inquieta dum mestre por excelência, que não estacionava sua atividade e busca de resultados num único lugar. Jesus, o “pescador” que bem conhecia o lago e suas cercanias, lançava seu “anzol” e suas “redes” em todas as direções, sem as preocupações acomodadas daqueles que preferem o lugar comum, o cenário habitual, o cardume que bem alimentam em seus redis, suas lagoas particulares. Não estacionava nunca; ia e vinha. Voltava para sua cidade, sem perder de vista o horizonte infindo de outras paragens onde pudesse cevar suas ideias, seu pensamento transformador. Aos paralisados à beira do seu caminho, encorajava e perdoava suas faltas, desafiando a se levantarem. Mas aos que estranhavam essa quase blasfêmia de atribuir a si uma ação que se julgava exclusividade divina, desafiava: O que é mais fácil, curar um paralítico ou perdoar seus pecados? E para provar sua origem e missão, ensinava ao conterrâneo: “Pega a tua cama e vai para tua casa” (Mt 9,8).

Voltar para casa, depois de anos estacionado na mesmice de uma vida mendicante, não pode ser considerado um conselho de acomodação pura e simples. Talvez um momento de restauração de forças, reposicionamento de ideias e reconciliação com os seus. Pois a um paralítico que por anos se habituou a uma vida sedentária, vivendo das esmolas dos doutores da lei e senhores da sociedade, a vida nova que a saúde – física e espiritual – que agora fazia vibrar em seu ser o faria um caminhante sem fronteiras e um arauto das novas energias que impulsionavam seu coração. Não estacionaria às margens daquele laguinho de incertezas que por anos dominou o cenário de sua existência, posto que outras margens e lagos, outras cidades e recantos poderia percorrer com seus próprios pés. O milagre que recebeu tirou-lhe o imobilismo da ração fácil e de uma existência sem grandes pretensões.

Essa é a dinâmica de uma consciência missionaria. Não estacionar, não se deixar “cevar” pelo comodismo, pelo medo de atravessar o lago e conhecer a outra margem, a realidade nua e crua daqueles que se deixam paralisar no conformismo com sua pequena realidade domestica. Uma igreja missionária vai e volta, contorna ou atravessa os “lagos” que nos dividem, olha o horizonte com o desejo de novas “empreitadas” em águas mais profundas, em realidades tão ou mais desafiadoras que aquelas que cercam nosso mundinho, nosso quintal… Para tanto, por primeiro há de se restaurar o imobilismo dos que nos cercam – os de nossa casa, nossa comunidade – para só então lançar as redes, alimentar outros “pesqueiros” com o ardor missionário restaurado por Cristo e renovado pela descoberta pessoal de que são nossos os pés daqueles que irão construir um mundo novo. Do outro lado do lago, às suas margens, também encontraremos Cristo e sua barca, a nos fazer companhia e dizer as palavras habituais nos momentos críticos: “Coragem, filho! Levanta-te e anda”.