Sobrou pra todos

295

Um dos poucos acontecimentos bíblicos narrados em destaque pelo cânon litúrgico de nossas missas, que não se encontra nos Evangelhos, mas nos Atos dos Apóstolos, é o milagre de Pentecostes. Atos, atitudes… Como diria um bom observador: é o que o fato exige; ou melhor: sobrou pra todos os que se envolveram ou foram protagonistas daquele acontecimento. O ruído se fez sentir. Todos viram e ouviram. Ninguém pode fugir. Todos se envolveram naquela torrente de línguas, naquele batismo de fogo…

Os acontecimentos não se restringiram ao quadrilátero limitado daquela pequena sala na periferia da cidade santa. A festa já corria solta pelas ruas de Jerusalém quando o pequeno grupo de privilegiados – o outrora pequenino rebanho assustado e acovardado diante dos últimos acontecimentos, que pensavam ameaçar suas vidas – escancara a porta do refúgio improvisado e, destemidamente, visivelmente transformados por uma luz de coragem e fé, enfrenta a multidão de “judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu” para lhes falar “na própria língua”… Mas falar o quê? Qual tamanha novidade seria capaz de parar aquele povo e fazê-lo entender o milagre que ali presenciavam? O que à primeira vista se via era um bando de bêbados, uma corja de loucos a dizer sandices.

Mas não. Não estavam embriagados, pois a luz que resplandecia de seus semblantes era algo maravilhoso, contagiante, que merecia suas atenções. “Seja vos isto conhecido e prestai atenção às minhas palavras”, dizia Pedro, o mais destemido dos doze. E esclarecia: “É Deus quem fala – derramarei do meu Espírito sobre todo o ser vivo” (At 2, 17). Desde então, ninguém estaria livre daquele penhor, se ao menos se dignassem “ouvir e aceitar” um novo estilo de vida, de espiritualidade, de comprometimento com o desafio da Ressurreição em Cristo, a nova esperança do cristianismo ali emergente. Das portas escancaradas daquele segundo andar surgia a novidade maior da fé apostólica: Cristo ressuscitou e cumpriu sua promessa, derramando agora o seu Espírito.

Um novo tipo de colheita ali se realizava. Não somente os frutos do trabalho do homem poderiam ser festejados, contabilizados naquele dia, mas igualmente todo e qualquer esforço que a humanidade fizesse em busca da plenitude da vida, desde então, seria possível alcançar. Para tanto, bastava boa vontade, atenção às palavras, às promessas anunciadas – no passado e no presente – que a fé sempre pura, mas igualmente poderosa, cristalina, audaciosa daqueles que se deixaram “transformar” pelo “fogo abrasador” de um novo batismo, um novo nascimento em Cristo, seriam capazes de alcançar. O Batismo de Fogo se estendia a todos! Era a maior dádiva daquela primeira Festa de Pentecostes genuína, extraordinária!

Somos herdeiros desse dia de luz. Temos, portanto, direitos às mesmas graças, à genética criadora e transformadora que os milagres pentecostais realizaram nas apinhadas ruas de uma Jerusalém ainda terrena, mas prometida desde então como precursora de nova realidade, a Jerusalém Celeste que haverão de habitar os “homens de boa-vontade”, aqueles que se deixarem abrasar pelas promessas transformadoras desse Espírito que nos conduz. Todos somos agraciados pelos dons da fé. Eles aí estão, a disposição de todos, bastando que haja abertura de alma e coração, solicitude, desejo, vontade de se deixar guiar e transformar… Os dons do Espírito nada custam, mas comprometem. Eis a questão, o desafio. “Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,38).

WAGNER PEDRO MENEZES

www.meac.com.br