Utopia e desilusão

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Sempre que um título juntar dois temas antagônicos ou mesmo similares, o leitor pode se precaver: aqui tem coisa. Pior ainda quando esses paralelos ocupam um espaço religioso, dando sequência a um assunto que vem dividindo opiniões e criando ou alimentando um espírito sectário dentro de comunidades de fé. Refiro-me ainda às polêmicas que o Sínodo da Amazônia vem provocando no seio do Povo de Deus, com críticas e aplausos impossíveis de serem mensurados justamente. Seriam mais críticas ou aplausos? Ainda é cedo para uma avaliação isenta, mas com certeza o Espírito Santo nos fornecerá suas luzes.

Quando se fala em utopia temos pela frente a impossibilidade de realização de alguns sonhos ou ideais que satisfaçam muitos interesses, sejam estes corporativos, pessoais, institucionais ou mesmo forjados pelas necessidades primárias de uma realidade comunitária, eclesial ou não. Recordando o encontro latino-americano dos bispos em Aparecida (2007), Papa Francisco fez seu o discurso de Bento XVI, citando-o em sua Carta Missionária deste ano. Para os povos latino-americanos e caribenhos a evangelização significou “conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente”, disse o Papa Bento já naquela época. Palavras que desejo subscrevê-las, reafirma Francisco. E sentencia, ainda nessa subscrição: “A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, separando-as de Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, mas uma regressão. Na realidade, seria uma involução para um momento histórico ancorado no passado”. Curiosamente, dois papas subscrevem uma afirmativa que hoje é o pivô das críticas ao sínodo em curso.

A desilusão mora aqui. Tentar uma acusação de falso proselitismo, de volta ao paganismo, de apoio à idolatria, de tolerância à ignorância religiosa, de abandono ao culto único e verdadeiro ao Deus Único e Verdadeiro da fé cristã, de sincretismo religioso para aumento de seguidores, ou de qualquer outra dessas balelas que vemos cuspidas sobre o rosto da Santa Igreja, é, deveras, a mais triste das desilusões que maculam os princípios milenares da fé cristã.

Portanto, ao acolher com velado respeito símbolos e ritos estranhos aos sacramentais e rituais católicos, a Igreja não está incorporando seus simbolismos, mas dizendo serem estes princípios de fé que podem evoluir para um amadurecimento maior, na unidade com os ensinamentos cristãos de respeito, tolerância e compreensão. São esses os princípios basilares de uma evangelização paciente e verdadeiramente fraterna. Nunca forçar, nem ironizar, nem condenar. Pior: atirar num rio… Apenas condescender, dando tempo ao tempo. É nesse tempo que a ação misericordiosa de Deus vai agir. Isso não é utopia cristã, mas pedagogia da fé. Respeito, tolerância e compreensão…

A desilusão maior é perceber que o desrespeito, a intolerância e a incompreensão nascem dentro das comunidades de fé. Aqueles que deveriam estar atentos e abertos a essa prática (evangelização sem imposições), são os primeiros a levantar suas bandeiras de fanatismo religioso, a gritar contra a maturidade de nossos bispos (verdadeiros mestres na diplomacia do diálogo inter-religioso) e, pasmem! – católicos de carteirinha e “comunhão” diária a rasgar publicamente o princípio apostólico da autoridade de Pedro… Paulo (seis deles) João Paulo (dois) ou Bento (dezesseis) ou Francisco (o primeiro com a coragem de despojamento do filho de Pietro de Bernardone). “Francisco, reconstrói a minha Igreja!”.

WAGNER PEDRO MENEZES

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