Vocacionados à santidade

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jesus rezando a oração do pai nosso

Neste final de semana vamos celebrar, no lugar do 31º Domingo do TC, a Solenidade de Todos os Santos, que aqui no Brasil, por questões pastorais, é transferida do dia 01 de novembro para o domingo seguinte, para que assim possa ser celebrada com maior participação do povo de Deus.

Sobre esta solenidade, comentava o Papa Francisco em sua homilia, no ano de 2016: “Celebramos, pois, a festa da santidade. Aquela santidade que, às vezes, não se manifeste em grandes obras nem em sucessos extraordinários, mas que sabe viver, fiel e diariamente, as exigências do Batismo. Uma santidade feita de amor a Deus e aos irmãos. Amor fiel até ao esquecimento de si mesmo e à entrega total aos outros, como a vida daquelas mães e pais que se sacrificam pelas suas famílias sabendo renunciar de boa vontade, embora nem sempre seja fácil, a tantas coisas, tantos projetos ou programas pessoais”.

No dia 02 de novembro, como de praxe, recordamos todos os fiéis defuntos, rezando por todos os falecidos. Cremos que após a nossa morte, temos imediatamente o juízo particular, onde a alma de cada um já colhe as consequências dos frutos que plantou durante a vida: céu, a comunhão plena com Deus, o purgatório, como momento de purificação ultraterrena para entrar na plena comunhão com Deus e o inferno. No dia de finados rezamos exatamente por todos esses fiéis que estão em seu período final de purificação no chamado purgatório, para que possam o quanto antes contemplar, na visão beatífica, a Graça do Senhor.  

As duas celebrações, a de finados e a de todos os santos, vem nos falar de nosso fim último, da direção final e do sentido da nossa existência. Constatamos que a nossa existência física neste mundo termina. Cremos na ressurreição final, mas enquanto isso sabemos que nossa vida não tem aqui morada permanente. Temos um coração desejoso e criado para a eternidade. Temos uma morada permanente preparada por Jesus. Porém, esta morada supõe que estejamos caminhando na vontade do Pai e andando nos caminhos do Senhor. É por isso que, se por um lado nos recordamos daqueles que partiram e recordamos também os que já estão na visão beatífica, junto de Deus.

Desses que estão junto de Deus, conhecemos alguns nomes e histórias, alguns morreram em fama de santidade ao longo dos séculos e em todas as regiões do mundo. Tendo também em vista o clamor do povo, a Igreja examinou suas vidas, verificou sua existência e atestou os sinais extraordinários por meio dos milagres, mostrando que são exemplos para nossa vida cristã e que intercedem por nós nessa nossa caminhada rumo aos céus. Estes são os santos e santas.

Além daqueles que estão canonizados ou beatificados, existe uma infinidade de outros irmãos na fé, que no silêncio de uma vida oculta com Cristo em Deus, alcançaram a coroa imperecível, que são os santos e santas que nós não conhecemos. Viveram a vida cristã em grau heroico, colocaram em prática a palavra de Deus, deram testemunho cristão nas várias situações da vida cotidiana, São santos porque estão diante do santo dos Santos, diante de Deus.

Portanto, não percamos de vista nosso fim último, que é o descanso eterno junto de Deus. Sabendo que nossa vida um dia termina, que possamos estar preparados para estar um dia diante do Senhor. Rezamos então pelos falecidos e pedimos auxílio para todos aqueles que nos precedem na glória, para que não percamos de vista essa nossa direção.

Mesmo em meio a tantas brigas e desavenças em nossa sociedade, quanto mais procuramos a razão de nossa vida e quanto mais procuramos vivenciar nossa vocação batismal, tantas situações são aquelas que poderão se corrigir e tomar novos rumos. Pensemos na finalidade de nossas vidas, rezemos por nossos falecidos e que não percamos de vista nosso fim último.

Estamos também já no final do ano litúrgico. Ao final de novembro estaremos já concluindo o ano litúrgico com a solenidade de Cristo Rei e no domingo anterior, 33º Domingo do tempo Comum, o dia mundial dos pobres. Que as semanas do mês de novembro possam junto com a liturgia, nos fazer ter mais viva a questão de nosso fim último.

Na Liturgia desta solenidade de todos os santos, a Palavra de Deus começa nos apresentando na segunda leitura a primeira carta de João (1 Jo 3, 1-3): Caríssimos: Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai. Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Todo o que espera nele, purifica-se a si mesmo, como também ele é puro.

Grande mistério, grande dom e grande revelação. Somos filhos de Deus! Isso já é uma realidade admirável. Mas ainda não nos foi revelado o que ainda chegaremos a ser, algo maior, sermos semelhantes a Jesus Cristo que ressuscitou dos mortos e está vivo diante do Pai.

Ao mesmo tempo, a palavra do Evangelho (Mt 5, 1-12a) mostra que desde já, mas também em toda a eternidade, somos chamados a ser bem-aventurados. O texto das bem-aventuranças nos fala de que são felizes não por passar fome, não por ser perseguido, não por ser pobres, mas porque encontraram em Deus a razão de suas vidas, porque deles é o reino dos céus, porque serão consolados, porque possuirão a terra, porque serão saciados, porque alcançarão misericórdia, porque verão a Deus, porque serão chamados Filhos de Deus.

Enfim, vemos que quanto mais vivemos a fé, mas alcançamos esta felicidade que não é sinônimo de euforia, mas de plenitude e satisfação interior por encontrar em Deus a realização de nossa vida. Se podemos ser felizes mesmo em meio a tantas adversidades, quanto mais poderemos viver esta realidade completa na eternidade: Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus (Mt 5, 11-12a).

Em meio a tantas situações adversas, somos chamados a testemunhar e vivenciar nossa alegria no Senhor e muito mais ainda nossa recompensa nos céus. O Papa Francisco, comentando esta passagem na oração do Ângelus no ano de 2018, assim se expressava:

“Perguntemo-nos de que lado estamos: do céu ou da terra? Vivemos para o Senhor ou para nós mesmos, para a felicidade eterna ou para alguma satisfação momentânea? Questionemo-nos: queremos deveras a santidade? Ou contentamo-nos de ser cristãos sem grande entusiasmo nem glória, que acreditam em Deus e estimam o próximo, mas sem exagerar? O Senhor «pede tudo, e aquilo que oferece é a vida verdadeira. Oferece tudo, oferece a felicidade para a qual fomos criados» (Exort. ap. Gaudete et exsultate, 1). Em síntese, ou santidade ou nada! Faz-nos bem deixarmo-nos provocar pelos santos, que aqui não tiveram meias medidas e de lá “torcem” por nós, para que escolhamos Deus, a humildade, a mansidão, a misericórdia, a pureza, para que nos apaixonemos pelo céu e não pela terra”.

Ao mesmo tempo, na leitura do apocalipse de São João (Ap 7, 2-4.9-14), fala de uma grande multidão, “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro”. Esses são aqueles que purificaram suas vidas no sangue de Cristo e seus pecados purificados pela efusão do sangue de Cristo.

O Papa Francisco, em sua homilia nesta solenidade no ano de 2013, assim dizia: “Um dos anciãos faz uma pergunta: quem são esses vestidos de branco, esses justos, esses santos, que estão no céu? São aqueles que vêm de uma grande tribulação e lavaram suas vestes, tornando-as cândidas no sangue do Cordeiro. Somente entraram no céu, graças ao sangue do Cordeiro, graças ao sangue de Cristo.

É o sangue de Cristo que nos justificou, que abriu as portas do Céu, e se hoje recordamos esses nossos irmãos que nos precederam na vida, que estão no Céu, é porque eles foram lavados pelo sangue de Cristo. Essa é nossa esperança. A esperança do sangue de Cristo. Essa esperança não dá desilusão. Esperamos na vida, como o Senhor. Ele não cria nenhuma desilusão, não nos dá desilusão, jamais”.

E assim  prossegue a leitura: “Eu, João, vi um outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele trazia a marca do Deus vivo e gritava, em alta voz, aos quatro anjos que tinham recebido o poder de danificar a terra e o mar, dizendo-lhes: “Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus”. Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: eram cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel”. “Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão”.

Traziam palmas vitoriosas e vestes brancas, sinal da vida batismal e da vida divina.

Todos proclamavam com voz forte: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”. Todos os anjos estavam de pé, em volta do trono e dos Anciãos, e dos quatro Seres vivos, e prostravam-se, com o rosto por terra, diante do trono. E adoravam a Deus, dizendo: “Amém. O louvor, a glória e a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força pertencem ao nosso Deus para sempre. Amém”.

Que a celebração deste domingo possa nos mostrar que este mundo passa e recuperar a dimensão última de nossas vidas que é Deus. Esta festa é um convite a tomarmos em conta a seriedade do dia a dia. É aqui que somos chamados a nos deixarmos cada dia mais nos converter e orientar nossas vidas para o céu. Busquemos a face de Deus cada vez mais. Que neste início do mês de novembro ao considerarmos as realidades finais de nossa existência, que possamos recomeçar em nosso dia a dia. Que nossa alegria de estar no Senhor possa ser testemunhada em nosso dia a dia.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro