Voos da pandorga

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Para quem não sabe, vou logo explicando. Pandorga é o mesmo que papagaio, pipa, aquele artefato infantil feito de varetas e papel, que infesta nossos céus em tempos de férias. Ora, porque então esse palavrão, já que outros sinônimos são mais conhecidos? Simplesmente por estar mais próximo de pândega (palhaçada) ou pandemônio (confusão demoníaca). Simplesmente porque o assunto é tão hilário e ilusório quanto a diversão infantil: fazer voar o mais alto possível um artefato feito com nossas próprias mãos, uma ilusão que nos diverte. É isso, então.

A criança humana conseguiu bater todos seus recordes. Na madrugada da última terça-feira (3.7.2016) uma pandorga humana emitiu sinal de estar a 800 milhões de quilômetros da Terra. Trata-se da sonda Juno, que nesta semana entrou na órbita do maior planeta do Sistema Solar, o grandioso Júpiter, que é nada mais, nada menos 1300 vezes maior que nossa Terra. Levou quase cinco anos para cumprir esse feito e chegar a quase quatro mil km de distância desse gigante do nosso universo. Enquanto aqui nesse planetinha o pandemônio de uma civilização cada vez mais incerta em seu próprio destino, continua a empinar suas pipas de ilusões perdidas, lá, quase no final de nosso universo possível e imaginário, Juno confirmava a possibilidade humana de alçar voos maiores e mais objetivos que nossa triste realidade terrena. Sim, somos capazes! Somos suficientemente inteligentes e capacitados para orbitar ao redor de realidades cósmicas maiores e mais belas que aquelas que nos prendem à pândega realidade que aqui construímos: terrorismo, prostituição, intolerância racial, fanatismo religioso, hedonismo, drogas, e por ai vai. Só para constar: nos grandes centros um simples e inofensivo papagaio infantil é também um sinalizador – código secreto entre traficantes – para anunciar o reabastecimento de drogas ou alertar quanto à presença policial. Pobre brinquedo de outrora!

Fiquemos, então, com o sofisticado brinquedinho tecnológico, capaz de voos maiores que nossa vã filosofia. Chegou lá com o emblemático nome de Juno, que na mitologia romana era a mulher de Júpiter, o deus mais poderoso desse panteão das crenças humanas. Ironia ou não, o fato é que conseguimos aproximar a amada do seu grande amor! O idílio humano tem seus voos e razões que só a razão conhece. Ou desconhece. Porque, afora essa aventura movida pela curiosidade que nos é própria, os engenheiros que não mediram esforços – nem investimentos – nessa brincadeira, justificaram-se dizendo que a missão interplanetária está em busca de água. Ao longo de 20 meses esse novo dedo duro terráqueo irá orbitar por 37 vezes ao redor dos polos do grande planeta, fazendo um mapeamento com sensores sofisticados e depois nos dará adeus chocando-se contra o gigante. Será o abraço fatal da esposa com seu amado. Um triste final para mais uma história de amor!

De tudo isso, o que nos resta? Lembrei-me de velho conselho do grande D. Hélder Câmara, uma criança a sorrir de nossas aventuras, nossas ilusões cotidianas. Disse-nos um dia: “Ótimo que tua mão ajude o voo… mas que ela jamais se atreva a tomar o lugar das asas”. Sonhar é bom. Mas iludir-se, jamais. Porque há sempre uma fonte de água aos pés de quem morre de sede. Basta vencermos a rocha, sondarmos o chão que pisamos. Não criemos ilusões com o mundo lá fora, quando é aqui, neste planetinha azul e maravilhoso, que Deus nos colocou. É nessa casa comum que devemos orbitar, tecer nossos sonhos, nossas histórias de amor pé no chão, sem outras ilusões que nunca alcançaremos. Soltar pipas, sondar o Infinito, faz bem; mas conhecer a própria realidade também.