A caridade não vive de holofotes

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A caridade não vive de holofotes

Quando as enfermeiras olharam a pequena Sophia vir ao mundo, imaginaram um quadro trágico. O parto, realizado no único hospital de Guajará-Mirim, cidade de 41 mil habitantes, na divisa de Rondônia com a Bolívia, foi feito às pressas, já que a mãe da criança avisou que não daria tempo de esperar mais. Assim, da dúvida, brotou a certeza dos corações que acreditam, que sabem que Deus não desampara e oferece sempre o melhor para seus filhos.

A bebê prematura de 32 semanas, que nasceu com 800 gramas, passou longos 27 dias se recuperando ao lado da mãe e, também, de inúmeros profissionais do Hospital Bom Pastor, que fazem diariamente da saúde uma missão sagrada, um verdadeiro sacerdócio, assim, de maneira desprendida, discreta e anônima, aceitando a promessa que Jesus nos fez: “E seu Pai que vê em secreto, o recompensará” (Mt 6:18).

Em Guajará-Mirim, apenas 3% dos domicílios da cidade contam com urbanização adequada (não têm bueiros, nem calçadas, pavimentação ou meio-fio). Nos arredores, centenas de índios, de 46 aldeias e mais de 30 etnias, também são atendidos com os recursos modestos e dedicação abundante. A história de Sophia teve um final feliz e ganhou os noticiários. Mas ela não é única.

Todos os meses, mais de um milhão de pacientes cruzam a porta dos hospitais que a Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar gerencia em 11 Estados brasileiros, em busca do alívio para corpo, em meio a tantas dificuldades. A caridade complementa a fé e a esperança. De acordo com o Catecismo nº 1829, “a caridade é desinteressada e liberal; é amizade e comunhão”. Minha vocação religiosa, assim como a de bispos e padres que servem a Deus e aos seus filhos mais pobres e esquecidos por meio da Pró-Saúde, passa por histórias cotidianas de flagelo e abandono.

Não ficamos inertes diante do apelo que ecoa em nossos ouvidos, desde as longínquas terras do Acre, passando pelos rincões do Baixo Amazonas e da Transamazônica, nas aldeias de Carajás e do Alto Pantanal, nas periferias dos maiores centros urbanos, como São Paulo e Paraná. Todos, sem distinção, são acolhidos diariamente pelo trabalho católico e beneficente que tenho a honra de conduzir há alguns anos.

Ser batizado significa morrer para nós mesmos, para nossos próprios interesses, e buscarmos a glória de Deus, ou seja, a sua santa vontade, em primeiro lugar. A Igreja Católica está em permanente campanha. Devemos vigiar sempre nossos pensamentos, nossas palavras e nossas ações. Os pensamentos nos conciliam com a vontade do Pai, sintonizando nossas palavras para bendizer e render graças por sua honra e glória. Mas o maior ensinamento, o mais importante para Jesus, são nossas ações, especialmente, aquelas que levam vida onde há dúvida, realizando obras por um mundo mais justo e digno para que mais pequenas Sophias deem graças a Ele pelo dom da vida. A caridade não vive de holofotes.

*Dom Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)

Presidente da Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar