A terapia das três gavetas

641

Júlia estava desesperada. Nada pra ela dava certo. Estava no limite quando ouviu falar da chegada de um monge na cidade. Chamava-se Sidour. Decidiu então, procurá-lo.

No dia seguinte pela manhã, estava diante dele. Pediu sua bênção, beijou-lhe respeitosamente a mão, e detalhou a sua vida. Ele a ouviu atentamente e manteve silêncio. Alguns segundos após, disse-lhe:

-Leve-me até a sua residência.

Ao chegar, e sem nenhuma cerimônia, pediu-lhe que mostrasse a sua cômoda.

Havia cinco gavetas, mas as que lhe interessavam eram as três superiores. Abriu a primeira. Observou os detalhes e fez a sua leitura:

-Júlia, esta é a gaveta da . Veja como está desarrumada. Não existe canto certo para nada. É o reflexo do seu interior. A fé nos é dada pelo Espírito Santo, e Ele é ORDEM.

Fechou e abriu a segunda. Passou os olhos vigilantes pelo conteúdo e afirmou:

-Esta é a gaveta da ESPERANÇA e depende diretamente da primeira. Se não houver equilíbrio (e aqui não há nenhum), nada funciona. A esperança é virtude que o Espírito Santo nos presenteia, e Ele é DETERMINAÇÃO.

Fechou a gaveta e abriu a última das três. Seus olhos estavam fixos na quantidade de objetos supérfluos.

-Amiga Júlia, eis a gaveta do AMOR. Veja a mistura de coisas novas, velhas, usadas, descoloridas, mofadas… O amor é sempre novo. Ele é o objetivo e a finalidade para o qual Deus nos criou. Fomos criados pelo Amor e para o Amor; e o amor é DESAPEGO.

A partir de agora “comece o começo“. Jesus está com você.

Júlia agradeceu. Permaneceu ainda alguns instantes no portão, enquanto ele subia ladeira acima rumo ao mosteiro.

Três meses depois ela voltou a reencontrá-lo. Abraçou-o carinhosamente, pediu a sua bênção…

-Monge Sidour, a minha vida mudou totalmente. Bati à porta da felicidade e ela foi aberta. Nada me falta. Com suas três santas palavras encontrei Jesus. Ele é agora verdadeiramente, o meu Senhor. A minha alegria não tem limites. Vim agradecê-lo. Muito obrigada pelo que o senhor fez por mim. Obrigada por me ter ajudado tanto.

-Eu não fiz nada, a não ser abrir as gavetas. Foi Deus quem falou através de mim. Portanto, você deve o agradecimento a Ele, que é “digno de louvor, de honra e glória para sempre“.

Encontrando Jesus, Júlia encontrou sua vocação. 

Hoje é monja contemplativa da Ordem das Clarissas – porque diz ela: “Se tudo clareou em minha vida depois do encontro com o monge Sidour, no mínimo Santa Clara escutou a conversa“.

#PazNoCoração

Antonio Luiz Macêdo

Leia mais obras do autor:

Conta-gotas

Gota de Esperança

Minhas Reflexões (início da página)

Antonio Luiz Macêdo