A voz do silêncio

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voz do silêncio e o caminho da paz

Al-Shab acordara cedinho. Os primeiros raios da aurora ainda se vestiam de vermelho. A paz emergia de todo o seu ser. Tudo era amor e harmonia.

– A paz, Mestre.

– Que esta paz envolva o teu coração.

– Não estou em paz. A inquietude toma conta de mim.

– Efraim – meu filho – se queres encontrar a paz, mergulha no silêncio e ouve a sua voz. Ele te dirá onde encontra-la.

– E o silêncio fala?

– Muito mais do que as palavras dizem.

– Mestre, como poderei ouvir a voz do silêncio? Ensina-me.

– Toma teu cantil de água, ração para três dias, e

encaminha-te até a Cabana da Clareira. Lá encontrarás escrito o que deves fazer.

Pouco tempo depois Efraim tomava o caminho da clareira a fim de ouvir a voz do silêncio.

Trinta minutos foi o tempo suficiente para percorrer aquela distância. Uma cabana sem paredes, coberta de palhas, um catre, um banco tosco, tendo diante de si um lago de águas serenas. Do teto pendia uma placa com a frase: “MERGULHA DENTRO DE TI E ME OUVIRÁS.”

Efraim inquietou-se mais ainda. Olhou ao redor como se procurasse ajuda. Os pássaros faziam uma festa com cantos e trinados maravilhosos. Virando um pouco a cabeça viu o lago e observou a serenidade de suas águas mansas. Estava na hora de começar.

Respirou profundamente dez vezes, expelindo o ar pela boca, foi relaxando progressivamente, fechou os olhos para evitar distrações, e esperou.

No primeiro dia mergulhou em muitos dos seus órgãos internos. Contemplou a maravilha que era. Viu o trabalho dos rins, do fígado, do pâncreas, dos músculos e nervos. A harmonia perfeita. A sincronização invejável. Ele passara no tempo e nem sentira. Já era noite. Tomou um pouco da ração, bebeu um copo de água e adormeceu, admirando as estrelas.

Cedinho já estava de pé. Realizou a higiene matinal, alimentou-se da ração e água, e logo recomeçou utilizando a técnica do dia anterior.

Mergulhou em seu cérebro. Bilhões de neurônios constituíam uma rede transmissora de impulsos nervosos para todo o corpo. A massa cinzenta – sede da inteligência – estava ali. A zona da memória. O bulbo, um dos componentes dos atos respiratórios. Quanto mais se aprofundava no mergulho, mais a voz do silêncio se fazia “escutar”. O barulho exterior não exercia nenhuma influência interior.

Final do segundo dia. Sentia algo diferente. Imagens de “campinas verdejantes”, oásis no deserto, botão de rosa se abrindo, por do sol nunca visto antes, rios de águas cristalinas, fontes jorrando da montanha… Era tudo tão maravilhoso que o extasiava. Tomou um banho no lago, em seguida recolheu-se. A fome e a sede haviam sido saciados no mergulho.

Era por volta das 4 horas da manhã quando Efraim levantou-se. Desejava saborear este dia em todos os seus aspectos. Sabia que o mistério se revelava lentamente. Não poderia apressar-se. Ração, água e reinício. Último dia.

Efraim deixou-se levar pela corrente sanguínea até chegar ao coração – sede dos afetos e dos sentimentos. Percorreu as aurículas e ventrículos – após atravessar as válvulas cardíacas. Contemplou, como que em êxtase as sístoles e diástoles. Via o coração como se fossem duas mãos fechadas e superpostas. Enquanto uma abria, a outra fechava, bombeando o sangue para todo o corpo e através de sucção levando-o até aos pulmões, onde passando pelo processo de oxigenação, voltava ao coração onde o ciclo continuava. Via de perto o encanto da vida. Seus sentimentos se aguçaram de tal forma nesta contemplação interior, que sua alma regozijava de alegria e júbilo, diante de toda esta maravilha.

Estava contente. Feliz. Em paz. Apenas não tivera a competência de ouvir a voz do silêncio. Isto era o de menos. Encontrar o caminho da paz tratava-se do seu objetivo maior.

Retornou para casa no final da tarde. Al-Shab esperava com um sorriso. Abraçaram-se. O Mestre detectou a luz que emanava dos seus olhos.

– Filho, ouviste a voz do silêncio?

– Não, Mestre. Mas descobri o caminho da paz.

– Se descobriste este caminho, com certeza ouviste a voz do silêncio.

– Por que tens esta certeza, pai?

– A voz do silêncio se manifesta pelas imagens geradas na alma. Apenas as imagens.

Em seguida, Efraim – agora convicto da experiência positiva – retirou-se para cuidar da horta, enquanto Al-Shab fazia a sua meditação.

Paz e Luz

Antonio Luiz Macêdo

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