Ano Novo: a Paz é possível

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Paz é possível com perdão e sem ódio

Na Bíblia, justiça e paz andam abraçadas, são siamesas, não podem separar-se. A paz é consequência da justiça. Outro binômio bíblico indissolúvel é o do perdão e da paz. perdão é mais nobre que a vingança, é atributo dos fortes. A luta pela paz está na bravura e na coragem da não violência que se fundamenta na verdade e na humildade. A desgraça das nações modernas é o egoísmo, a exclusividade, a supremacia. Cada uma quer tirar proveito da outra e se construir sobre a ruína alheia.

A guerra é lei dos brutos e, portanto, indigna dos seres humanos. A violência só aprofunda o ódio e nunca teve sucesso, pois “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Certas verdades precisam ser repetidas enquanto houver homens que não acreditam nelas, como é o caso da não violência, do perdão, da reconciliação. O ódio só pode ser vencido pelo amor, nunca pela violência. O amor é a força mais poderosa do mundo, embora seja a mais humilde. Bebendo da taça do amor, lançaremos fora a espada. A força da alma é infinitamente superior à força física. Só a devoção à verdade leva à política correta. A guerra começa no espírito e no coração, brota da intenção violenta. Só o amor salvará o mundo e a sobrevivência da humanidade.

Temos atualmente 25 possibilidades de destruição total do mundo. Foi criado o princípio de autodestruição da terra por causa do egoísmo humano. A paz dependerá do cuidado que devemos alimentar uns pelos outros, pois o mundo é uma grande família. A concórdia e a cordialidade, que é a sinfonia dos corações, só será possível com o coração purificado. Sem misericórdia e tolerância, mansidão e compaixão, nossa civilização emite apenas um falso brilho. A vitória da paz consiste em desarmar o agressor pelo amor e pelo respeito. A moral do violento é reforçada pela violência da vítima. Quem responde pela violência mostra que tem a mesma moral do agressor. “A violência sempre foi a arma dos fracos” (Gandhi). O confronto, a força, a guerra são uma derrota da humanidade.

Na verdade, quando a violência nos favorece, nós a chamamos de valor, nós a legitimamos e o que ela acarreta de negativo é silenciado. A desordem econômica é a raiz de todas as violências. Sem pão e sem afeto a pessoa humana é uma fera. A paz é a tranquilidade da ordem. Só uma reordenação econômica e social trará a paz definitiva. Paz é o equilíbrio do movimento, ou seja, é o equilíbrio entre o pessoal e o social. Os sistemas econômicos injustos e excludentes trazem a guerra dentro de si. Sem opção preferencial pelos pobres, a paz não habitará na terra. O crescimento econômico é carregado de contradições. Oferece grandes oportunidades a poucos afortunados e deixa milhões à margem, excluídos e marginalizados. A força da paz está no amor social. “Amai a justiça, vós que governais a terra”. (Sab 1,1). Enquanto houver miséria, haverá violência. A luta pela paz não é algo romântico, mas uma opção pelo bem, pela verdade e pela dignidade da pessoa humana. Que a paz habite em nossas casas e ruas!

Dom Orlando Brandes

Arcebispo de Aparecida (SP)