Apascenta as minhas ovelhas

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Apascenta as minhas ovelhas

Raras são as vezes em que temos oportunidade de testemunhar certos eventos. A posse de um bispo é uma dessas raridades. Como escriba, tive tal privilégio neste final de semana. Evento localizado, que diria respeito apenas à minha diocese de origem, mas que, pela raridade e preciosidade simbólica, estendo a todos meus leitores, de qualquer rincão deste mundo sem fronteiras.

Afinal, assim vejo hoje a atividade do escriba, que ultrapassa fronteiras, crenças, ideologias e o próprio tempo. O que a internet configura há de permanecer no espaço e tempo do homem moderno. Aqui escrevo; mas as nuvens cibernéticas não me dizem para quem e até quando…

Vivi, pois, um momento único, cuja importância só a proporcionalidade deste pode traduzir. Imaginem o maior templo religioso de uma cidade do interior completamente tomado, abarrotado de um público orante e cantante, cuja vibração tinha um único e simples objetivo ou razão: acolher o novo bispo de uma diocese vacante dessa figura central.

Nenhuma importância teria fora de seus domínios, não fosse essa uma típica cidade cristã, num mundo ocidental onde ainda impera a liberdade religiosa e onde a tradição de seu povo ainda valoriza a autoridade da igreja. Portanto, uma quase exceção num mundo quase paganizado e numa sociedade onde a fé é hoje um valor sob pressão dos modernos sistemas agnósticos e zelosos na liberdade do indivíduo perante suas crenças. Ou seja, um mundo onde ainda se permite manifestações de fé, desde que…, bem, desde que não interfira na liberdade dos descrentes ou não atrapalhe a libertinagem dos demais…

Proporcionalmente falando, o que vi na catedral diocesana de Assis, neste final de semana, foi uma prova inaudita de que a fé cristã ainda é uma força que não se pode menosprezar. O canto uníssono daquele povo traduzia uma necessidade: precisamos de alguém que nos conduza neste mundo em caos. Precisamos de pastores! A estrutura hierárquica do catolicismo, bem enraizada em nosso meio, ainda é um baluarte de fé e esperança dum povo sedento. Bem o disse o Evangelho daquela cerimônia: “Quem beber da água que eu lhe der, jamais terá sede”.

Ora, se a sede humana já não se sacia com um simples copo d´água é porque nossa estrutura de vida acomodada à beira dos nossos poços existenciais hoje clama por algo mais, um elemento de vida que nos satisfaça não apenas fisicamente, mas sobretudo espiritualmente. É desse elemento que nos fala a fé. É essa a maior necessidade do homem carente de um novo sentido existencial, que só uma redescoberta espiritual pode preencher. Aquela catedral em festa me dizia isto: estamos voltando ao poço de Jacó, para reencontrar a água viva da esperança cristã.

A posse de Dom Argemiro de Azevedo, o sexto bispo da pequena diocese de Assis, mais que uma festa de caráter regional, foi mais um grito isolado do povo de Deus num mundo em conflito. Não se trata tão somente de suprir a necessidade de uma igreja particular, mas torná-la coesa num estrutura universal, onde ser cristão, hoje, é correr risco de vida.

Quando a estrutura da qual fazemos parte sofre aqui e acolá, é perseguida e rejeitada doutrinaria e moralmente, é achincalhada publicamente como instituição retrógrada ou alhures, não é um membro que sofre casualmente, mas um povo todo. Como Igreja Particular, somos membros vivos de um Cristo que ainda sofre as angústias e perseguições da sociedade. Mas Ele não nos deixou órfãos e constituiu pastores para nos conduzir. E a eles, somente a eles, reiterou por três vezes seguidas: “Se me amas, apascenta meu rebanho”.