A cananeia (Mc 7,24-30)

547
A cananeia (Mc 7,24-30)

A primeira viagem de Jesus fora do território da Galiléia foi até uma cidade da Síria denominada Tiro, uma região extremamente paganizada, onde a idolatria multiplicava-se a olhos vistos.

O porto marítimo mais famoso das antigas terras da Bíblia estava situado há trinta e dois quilômetros ao sul de Sidon. A cidade de Tiro contava com dois portos: um situado ao norte e o outro ao sul. Seus muros eram de grande altura.

Ali os artesãos fabricavam artigos e diferentes produtos artísticos de bronze e de prata, e preparavam a tinta púrpura que tornou Tiro, famosa. Em conseqüência deste comércio crescente e próspero com a presença constante de mercadores das terras do Mediterrâneo, Tiro converteu-se em uma bem povoada e afamada cidade.

“Saindo dali foi para o território de Tiro. Entrou numa casa e não queria que ninguém soubesse; mas não conseguiu permanecer oculto”.

Nas entrelinhas deste preâmbulo, descobre-se que Jesus, desgastado pelas idas e vindas das viagens missionárias, desejava repousar um pouco num território que julgava não ser incomodado e onde poderia recobrar forças e levar adiante o anúncio do Reino “às ovelhas perdidas da casa de Israel”.

“Pois logo em seguida, uma mulher cuja filha estava possuída por um espírito impuro, ouvindo falar de Jesus, veio e atirou-se a seus pés”. Pois, logo em seguida… Mal havia chegado, mal pusera os pés naquela casa onde supostamente iria repousar o corpo cansado após tantas e tantas caminhadas, havia sido descoberto por uma mulher sírio-fenícia, uma mulher pagã, idólatra, que prestava culto e reverência a outros deuses e deusas. _ Qual o motivo que a havia trazido até Jesus? Sua filha era possuída por um espírito impuro. E o que isto representava dentro daquela sociedade? No seus excelente livro – Jesus Antes do Cristianismo – Albert Nolan nos explica. “Para o judeu e para o oriental pagão, o corpo é a morada de um espírito. Deus sopra o espírito para dentro de um homem, para fazê-lo viver. Ao morrer, este espírito deixa o corpo. Durante a vida outros espíritos poderiam também habitar o corpo de uma pessoa. – seja espírito bom (o Espírito de Deus) ou espírito mau, impuro, um demônio. Essa condição poderia ser observada pelo comportamento da pessoa. Sempre que uma pessoa não estivesse ’em si’,estivesse ‘fora de si’ e parecesse ter perdido o controle de si mesma, então se considerava, é óbvio, que alguma coisa havia entrado nela. Hoje em dia ainda dizemos: _ O que foi que deu nele? Aos olhos de um orienta,l não é o espírito próprio do homem que está agindo então. Está possuído por algum outro espírito. Dependendo da maneira como se avalia o seu comportamento estranho, seria chamado de espírito bom ou espírito mau. Assim, o comportamento extraordinário e os lampejos desusados de percepção por parte de um profeta (especialmente se entrasse em transe), seriam definidos como possessão pelo Espírito de Deus/ enquanto o comportamento patológico das pessoas mentalmente doentes, seria definido como possessão por espírito mau”.

A verdade é que a menina estava doente, atormentada e sua mãe ouvira falar de Jesus. E nesse “ouvir falar” escondem-se curas, milagres, libertações, sinais prodigiosos realizados pela presença daquele Galileu. E a chama que ainda fumegava reacendeu no seu coração. Ela tomou a decisão. Veio. Quebrou o protocolo. Teve a coragem que nenhum filho de Israel havia tido. E frente a frente com Jesus, atirou-se a seus pés.

“Atirou-se a seus pés e lhe rogava que expulsasse o demônio de sua filha”. Era a oração da humildade, da entrega e da súplica. Naquele “atirar-se aos pés de Jesus” ela reconhecia dali por diante e de uma vez por todas. O Senhorio dele na sua vida e na vida de sua filha. “Senhor, expulsa o demônio da minha filha! Tu tens este poder. Os deuses e deusas a quem eu servi, jamais poderiam realizar o que tu realizas. Eu te suplico: Cura minha filha!”

As palavras pronunciadas naquele momento por Jesus, deixariam qualquer um de nós abismados, incrédulos, boquiabertos, desencorajados. Ele dizia: “Deixa primeiro que os filhos se saciem porque não é bom tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos”. Ela, porém, lhe respondeu: “É verdade Senhor; mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem das mesas dos seus donos!” Que mulher extraordinária! Que mulher de fé! Na sua atitude de enfrentamento e na sua resposta, simplesmente ela vencera Jesus. A sua determinação, obstinação, perseverança, humildade, fizeram-na uma vitoriosa. Vitória reconhecida pelo próprio Jesus quando lhe diz: “Pelo que disseste, vai, o demônio saiu da tua filha!” Ela voltou para casa e encontrou a criança atirada sobre a cama. E o demônio tinha ido embora.

Quantos cristãos, católicos praticantes engajados em movimentos e ministérios da Igreja, teriam o comportamento da cananéia? Mulher pagã, adoradora de outras entidades, com uma filhinha enferma mentalmente carregando uma grande tristeza no coração, sem saber mais o que fazer, mas sem se desesperançar, ouviu falar, o-u-v-i-u f-a-l-a-r de Jesus e mudou, m-u-d-o-u completamente de atitude. Quantos cristãos católicos, vivendo situação semelhante, conhecendo Jesus e experienciando em suas vidas o seu poder, mudaram de atitude também?! Ouviram falar que no centro espírita tem um “médium” fenomenal que é capaz de realizar prodígios e correm para lá; ouviram dizer que a mãe Nana realiza “trabalhos” para o marido deixar de beber, e a correria é uma só; foi comentado numa roda de amigos que se você estiver “apertado financeiramente”, o remédio está na reza do pai Ambrósio: no outro dia você amanhece riquinho da silva. Que pena!… Que pena!… Uma mulher pagã passando a perna em você! Que ela lhe ensine a confiar em Jesus da maneira que ela confiou; que ela lhe ensine a correta decisão, a decisão que ela tomou; que ela lhe ensine a ir ao encontro de Jesus, mesmo que para isso seja necessário quebrar o protocolo; que ela lhe ensine a atirar-se aos pés daquele que tudo pode, porque ele é o Deus do impossível; e por fim, que ela lhe ensine o caminho da determinação, a coragem da verdade e a vida da humildade, para que, assim, você possa reencontrar novamente Aquele que é a determinação do seu caminho, a verdade da sua coragem e a humildade da sua vida. São palavras e gestos que curam o corpo, a alma e o coração.

Antonio Luiz Macêdo
poupalavras.blogspot.com.br