Dá-me dessa água

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jesus e a samaritana

Prosseguindo nossa caminhada de oração, jejum e penitência deste tempo quaresmal, neste 3º domingo da quaresma ouviremos exatamente a Palavra de Deus nos falar sobre o simbolismo da água que purifica e sacia a sede do homem, símbolo da realidade batismal, apontando para a própria Água viva, que é Cristo.

Ao mesmo tempo, seguimos nossa caminhada da Campanha da Fraternidade, Viu, sentiu compaixão e cuidou dele (Lc 10, 33-34), que tem como objetivo geral conscientizar, à luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como Dom e compromisso, conforme o tema da CF deste ano, Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso, que se traduz em relações de mútuo cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e no planeta, nossa casa comum. A vida como Dom e Compromisso nos faz corresponsáveis uns pelos outros e com tudo o que está ao nosso redor. Como podemos nos converter para o bem do outro?  Como vamos encontrar Cristo na figura do outro? A quaresma não é tempo de olhar somente para nossos pecados pessoais, mas também uma oportunidade de olhar para nossos pecados sociais, a partir das tantas consequências que tem nossa relação com o outro. Num contexto onde tantas mentiras são levantadas contra Cristo, contra Maria, contra a Igreja, a maneira de nos relacionarmos uns com os outros vai ser a maneira que teremos para responder a tantos ataques feitos contra o essencial da fé, que é manifestar a bondade de Deus. Ao falar dos objetivos específicos da Campanha da Fraternidade, o texto base propõe:

– apresentar o sentido da vida proposto por Jesus nos Evangelhos: quem somos, de onde viemos e qual é nosso fim último; questões fundamentais analisadas a partir daquele que veio mostrar o homem ao próprio homem, Cristo Jesus, como nos recorda o Vaticano II.

– Propor a compaixão, a ternura e o cuidado como exigências fundamentais da vida para  relações sociais mais humanas. Quando passamos a vida pensando somente em nós mesmos, acabamos construindo nossos infernos.

– Fortalecer a cultura do encontro, da fraternidade e a revolução do cuidado como caminhos de superação da indiferença e da violência.

Neste IIIº Domingo da Quaresma, o grande tema que nos conduz é a água, símbolo da vida. Como caminhamos para a Páscoa e para renovar as nossas promessas batismais, o tema da água tem tudo a ver. A 1ª Leitura (Ex 17, 3-7) nos fala da água que brota da rocha golpeada por Moisés para saciar a sede do povo no deserto. Moisés dá de beber a seu povo. É imagem de Cristo, que no futuro dará a água viva, que é o Espírito Santo. Na 2ª Leitura (Rm 5, 1-2. 5-8) São Paulo faz uma releitura significativa: Do Cristo morto e ressuscitado brota o Espírito como rio de água viva. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado”. (Rm 5, 5)

Este terceiro Domingo da Quaresma vem marcado pelo texto do Evangelho de S. João (Jo 4,5-42), que mostra o encontro de Jesus com a Samaritana, que estando à beira do poço de Jacó, se encontra com Jesus. A mulher ali está por uma necessidade, a de tirar água para saciar sua sede. Jesus vem ao encontro daquela mulher e lhe oferece gratuitamente, generosamente, muito mais do que ela buscava. Ante o espanto da mulher ao ouvir o pedido de Jesus para que esta lhe desse de beber, já que judeus e samaritanos tinham razões históricas de desavenças, inicia-se um diálogo carregado de contribuições para a fé, principalmente quando Jesus fala daquele que pode oferecer a Água Viva. Ante essa proposta, a mulher pede dessa água, mas sem ainda compreender a profundidade do que Cristo lhe havia oferecido, compreendendo a oferta somente a partir de uma perspectiva humana. O Senhor prometia à mulher saciá-la com o Espírito Santo. Mas ela ainda não compreendia e disse-lhe: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Santo Agostinho).

 Jesus, através de seu diálogo com a mulher, vai levando-a a um caminho de conversão, iluminando sua existência inteira.

Ao passar para o diálogo sobre questões religiosas, vem também um dos momentos mais marcantes do relato, quando Jesus fala da nova forma de adorar a Deus, agora não mais em um ou outro lugar determinado, mas em Espírito e Verdade. Cristo mostra a presença de Deus na vida das pessoas e da história. Aquela mulher, uma vez que teve sua vida iluminada pelo olhar misericordioso de Deus, torna-se agora comunicadora desta boa nova a todos os seus, onde muitos a acompanham e acabam tendo seu momento de especial encontro com Deus: Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: `Ele me disse tudo o que eu fiz.`
Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias.
E muitos outros creram por causa da sua palavra. E disseram à mulher: ‘Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo. (Jo 4, 39-42).’

A transformação que a graça opera na Samaritana é maravilhosa! O pensamento dessa mulher centra-se agora somente em Jesus e, esquecendo-se do motivo que a tinha levado ao poço, deixa o seu cântaro e dirige-se à aldeia para comunicar a sua descoberta! “Os Apóstolos, quando foram chamados, deixaram as redes; a Samaritana deixa o seu cântaro e anuncia o Evangelho, e não chama somente um, mas põe em alvoroço toda a cidade” (Hom. sobre São João, 33). Toda conversão autêntica projeta-se necessariamente para os outros, num desejo de torná-los participantes da alegria de se ter encontrado com Jesus. É o encontro com o Senhor que nos faz anunciá-Lo aos quatro cantos com entusiasmo e alegria.

Aquele que se encontra com Cristo passa a ser apóstolo de Cristo. Sua experiência de encontro com Deus partilhada com os outros é só o início de um caminho que cada um deve fazer pessoalmente com Deus, a experiência pessoal de Cristo.

Essa deve ser a nossa experiência da Quaresma. Muitos foram os caminhos que nos trouxeram para a Fé ou para o conhecimento de Cristo. Agora é tempo de realizar ou de renovar nossa própria experiência de encontro pessoal com Cristo, que deve ser renovado a cada dia e de maneira mais intensa neste tempo de Quaresma, tempo de volta para Deus.

Portanto, olhemos para Jesus, aproximemo-nos dele, o Rochedo que, ferido na cruz, de lado aberto, faz jorrar a água do Espírito para o seu povo peregrino e sedento. O mundo, tão sedento, procura matar a sede em tantas águas contaminadas, envenenadas, águas que matam! Que nós saciemos nossa sede no Cristo, o Rochedo, que jorra a água do Espírito, que dura para a vida eterna!

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro