“Eis-me aqui, Senhor”

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Celebramos no terceiro domingo de agosto o dia da vida religiosa. Nesse momento gostaria de recolocar o ensinamento sempre atual de São Paulo VI sobre a vida consagrada: A Exortação Apostólica EVANGELICA TESTIFICATIO, sobre a renovação da vida religiosa segundo os ensinamentos do Concílio Vaticano II.

São Paulo VI ressaltou o testemunho da vida consagrada: “O testemunho evangélico da vida religiosa manifesta claramente, aos olhos dos homens, o primado do amor de Deus, com uma força tal, que por ela havemos de dar graças ao Espírito Santo. Com toda a simplicidade, à semelhança do que fez o nosso venerável predecessor João XIII, nas vésperas do Concílio,(1) quereríamos dizer-vos qual a esperança que suscita em nós, bem como em todos os Pastores da Igreja, a generosidade espiritual daqueles, homens e mulheres, que consagraram a própria vida ao Senhor, no espírito e na prática dos conselhos evangélicos. Desejamos, além disto, ajudar-vos a continuar o vosso caminho de seguidores de Cristo, na fidelidade aos ensinamentos conciliares

A vida consagrada é convocada a dar  “o testemunho que o Povo de Deus espera: se fordes homens e mulheres capazes de aceitar a incógnita da pobreza, de ser atraídos pela simplicidade e pela humildade, amantes da paz, imunes de compromissos, decididos para a total abnegação, livres e ao mesmo tempo obedientes, espontâneos e constantes, doces e fortes na certeza da fé: esta graça vos será dada por Jesus Cristo, na proporção da entrega completa que houverdes feito de vós mesmos e que jamais haveis de fazer objeto de retratação.

A história recente de tantos Religiosos e Religiosas que sofreram generosamente por Cristo, em diversos países, é disso uma prova eloquente. Ao exprimir-lhes a nossa admiração, nós os propomos à imitação de todos

Várias são as formas de vida consagrada:

  1. Vida contemplativa: empolgados por Deus estes nossos irmãos entregam-se à ação soberana divina que transforma a vida para a contemplação eterna.
  2. Vida apostólica: ressalta a missão de anunciar a Palavra de Deus àqueles que o Senhor coloca no seu caminho e os conduzir à vivência e o testemunho da fé.
  3. Contemplação e apostolado: muitas são as atividades a serem desenvolvidas como no dedicado serviço dos homens, na vida pastoral, nas missões, na vida paroquial, no ensino, na saúde, nas obras de caridade, guiados sempre pela adesão ao Senhor, primeiro que tudo, contemplando a Trindade e trabalhando para santificar e animar as múltiplas realidades pastorais e sociais.
  4. Novas comunidades: novos carismas, a partir do impulso do Espírito Santo, pelas luzes do Concílio Ecumênico Vaticano II nasceram múltiplas formas de vida religiosa pela ação do Espírito Santo que “irrompe” na vida eclesial e tem como marca apostolicidade nos movimentos como continuação da missão evangelizadora da Igreja. A especificidade das novas comunidades é marcada a partir de elementos essenciais, tais como: a participação dos fiéis de diversos estados de vida, um itinerário de fé e testemunho de vida cristã, o carisma próprio e a dedicação apostólica com um particular impulso missionário.

Não poderíamos olvidar de relembrar a liberdade e a doação plena que geram os conselhos evangélicos:

  1. Castidade consagrada: fonte, livre e generosa, de fecundidade espiritual e dom de Deus para uma dedicação exclusiva e autêntica para a vivência do estado de vida.
  2. Pobreza evangélica e dedicação integral ao clamor dos pobres, diante da justiça e do reto uso dos bens materiais em favor da ação própria da própria consagração. Com um trabalho em favor do irmão compartindo fraternalmente os bens e os dons.
  3. Obediência consagrada é a consagração da oblação total da vontade decidindo-se com segurança em obedecer a Jesus Cristo no seu superior.

O Papa Francisco, ao se dirigir aos consagrados, pontuou perfeitamente o que devemos, todos nós, e eu me incluo como cisterciense, no que é o cerne do que se espera dos consagrados nesta comemoração de seu dia: “A vida consagrada nasce e renasce do encontro com Jesus assim como é: pobre, casto e obediente.

A linha sobre a qual caminha é dupla: por um lado, a amorosa iniciativa de Deus, da qual tudo começa e à qual sempre devemos retornar, e, por outro, a nossa resposta, que é de amor verdadeiro quando não há «se» nem «mas», quando imita Jesus pobre, casto e obediente. Deste modo, enquanto a vida do mundo procura acumular, a vida consagrada deixa as riquezas que passam, para abraçar Aquele que permanece.

A vida do mundo corre atrás dos prazeres e ambições pessoais, a vida consagrada deixa o afeto livre de qualquer propriedade para amar plenamente a Deus e aos outros. A vida do mundo aposta em poder fazer o que se quer, a vida consagrada escolhe a obediência humilde como liberdade maior. E, enquanto a vida do mundo depressa deixa vazias as mãos e o coração, a vida segundo Jesus enche de paz até ao fim, como no Evangelho, onde os anciãos chegam felizes ao ocaso da vida, com o Senhor nos seus braços e a alegria no coração.

Como nos faz bem ter o Senhor «nos braços» (Lc 2, 28), à semelhança de Simeão! Não só na mente e no coração, mas também nas mãos, ou seja, em tudo o que fazemos: na oração, no trabalho, à mesa, ao telefone, na escola, com os pobres, por todo o lado. Ter o Senhor nas mãos é o antídoto contra o misticismo isolado e o ativismo desenfreado, porque o encontro real com Jesus endireita tanto os sentimentalistas devotos como os ativistas frenéticos.

Viver o encontro com Jesus é o remédio também contra a paralisia da normalidade, abrindo-se ao rebuliço diário da graça. Deixar-se encontrar por Jesus, fazer encontrar Jesus: é o segredo para manter viva a chama da vida espiritual. É o modo para não ser absorvido numa vida asfixiadora, onde prevalecem as queixas, a amargura e as inevitáveis decepções. Encontrar-se em Jesus como irmãos e irmãs, jovens e anciãos, para superar a retórica estéril dos «bons velhos tempos» – aquela nostalgia que mata a alma –, para silenciar o «aqui nada funciona». O coração, se encontrar cada dia Jesus e os seus irmãos, não se polariza para o passado nem para o futuro, mas vive o «hoje» de Deus em paz com todos.”

Aos consagrados de nossa Arquidiocese quero provoca-los com o tema do vosso encontro em comemoração ao vosso abençõado trabalho: “Eis-me aqui Senhor” (Cf. Is 6,8) Deus tem um plano para cada um de nós! Ao longo da história, Deus sempre chama pessoas e as envia para realizar o seu plano de amor. A Isaías, Deus se revelou quando ele estava em oração no templo (cf. Is 6, 1-8).

Inicialmente, Isaias se sente pequeno e indigno. Deus então pergunta: “Quem vou enviar?” Isaías, sensível ao apelo de Deus, aceita: “Eis-me aqui, envia-me.” Vemos aqui os passos da vocação: A iniciativa é sempre de Deus. A primeira reação é sempre a mesma: “não sou capaz.” “Não sou digno.” Mas, quando confiamos em Deus e nos colocamos numa atitude de disponibilidade, Deus nos purifica e fortalece, e acabamos, com a graça de Deus, dando conta do recado.

Em toda a ação apostólica, há dois requisitos indispensáveis: a fé e a obediência. De nada serviriam o esforço, os meios humanos, as noites em claro, se estivessem desligados do querer divino… Sem obediência, tudo é inútil diante de Deus.

De nada serviria entregarmo-nos com brio e garra a um empreendimento apostólico se não contássemos com o Senhor. Até aquilo que é mais valioso nas nossas obras se tornaria estéril se prescindíssemos do desejo de cumprir a vontade de Deus. “Deus não necessita do nosso trabalho, mas da nossa obediência”, ensina São João Crisóstomo.

Quero apresentar minha gratidão para todos os consagrados que trabalham em nossa Arquidiocese. Rezemos com fé pelos nossos consagrados, esses homens e mulheres valiosos que deixaram tudo e seguiram o Senhor.

Todos são homens e mulheres preciosos e entregues ao Amor de Deus! Os consagrados são conscientes de que a felicidade só se encontra no serviço de Deus e pedem insistentemente ao Senhor a graça de serem cada vez mais fiéis, já que o segredo da felicidade é a fidelidade. Os consagrados decididamente sabem que podem dar às pessoas de hoje o que tanto procuram: o fundamento, o centro e o fim da felicidade humana, que é Jesus Cristo.

A consagração religiosa pode parecer uma loucura e algumas moças talvez até diriam que é um “desperdício” de rapazes e moças. Verdadeiramente, a vocação religiosa é uma “loucura de amor”. Não se trata de deixar de amar, mas de amar com um coração indiviso. Todos encontram lugar no coração do consagrado: mulheres, homens, crianças, velhos e velhas, jovens, pobres e ricos. Todos, ao passar pelo coração do consagrado, chegam ao coração de Deus.

Que muitos jovens se deixem contagiar com essa loucura do amor e se decidam a “amar o Amor”. Deus continua chamando operários para a Messe: Uns são chamados para serem profetas como Isaías, e pescadores de homens como Pedro. Qual é a nossa resposta? Peçamos ao Senhor a graça de acolhermos com a generosidade, respondendo eloquentemente: “Eis-me aqui Senhor!” (cf. Is 6,8).

Sejamos consagrados alegres e disponíveis porque a alegria do Evangelho deve encher o coração e a vida inteira dos consagrados que deixaram tudo para o encontro com Jesus. Com Jesus Cristo, nasce e renasce sem cessar a alegria da vida consagrada que pela beleza do Evangelho o religioso encanta e transforma o mundo.

Na específica e religiosa missão do consagrado de consolar o Povo de Deus pela escuta, pelo testemunho, levando o abraço de Deus, manifestando a ternura evangélica, caminhando e sendo próximo com a graça da inquietude do amor. Vivamos, religiosamente, assim e que a Virgem Maria e nossos santos fundadores nos inspire: “Eis-me aqui Senhor! (cf. Is 6,8). Demos graças a Deus pela vida consagrada que santifica a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, Amém!

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ