Estejamos preparados

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Estamos nos últimos domingos do ano litúrgico. Celebramos o penúltimo deste ano, chamado de ano C (quando lemos aos domingos, principalmente o Evangelho de Lucas), o 33º Domingo do Tempo Comum. Este domingo foi escolhido pelo Papa Francisco para celebrar o Dia Mundial dos Pobres. O tema deste III ano é: “A esperança dos pobres jamais se frustrará» (Sal 9, 19). Comentando este tema, diz o papa em sua mensagem para o Dia Mundial do Pobre 2019:

“Constitui um refrão permanente da Sagrada Escritura a descrição da ação de Deus em favor dos pobres. É Aquele que «escuta», «intervém», «protege», «defende», «resgata», «salva»… Em suma, um pobre não poderá jamais encontrar Deus indiferente ou silencioso perante a sua oração. É Aquele que faz justiça e não esquece (cf. Sal 40, 18; 70, 6); mais, constitui um refúgio para o pobre e não cessa de vir em sua ajuda (cf. Sal 10, 14)”.

E continua:

“O compromisso dos cristãos, por ocasião deste Dia Mundial e sobretudo na vida ordinária de cada dia, não consiste apenas em iniciativas de assistência que, embora louváveis e necessárias, devem tender a aumentar em cada um aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade. Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pelos pobres, buscando o seu verdadeiro bem. Antes de tudo, os pobres precisam de Deus, do seu amor tornado visível por pessoas santas que vivem ao lado deles e que, na simplicidade da sua vida, exprimem e fazem emergir a força do amor cristão”.

A opção preferencial pelos pobres tantas vezes proclamada pela Igreja deve ser uma consequência imediata de nossa vida cristã, do amor a Jesus Cristo que vemos refletido em nossos irmãos. Tantos são os moradores de rua, indigentes e desempregados que temos de nos deparar com eles ainda hoje, em nossas calçadas, em nossos sinais, dentro de nossos ônibus, trens e metrôs.

A Igreja católica não deixa de fazer a sua parte mantendo tantas obras sociais que vem ao encontro das necessidades imediatas desses nossos irmãos. A ação caritativa da Igreja, assim como nos inícios do Cristianismo, segue fazendo a diferença, buscando que cada um possa vivenciar a dignidade humana e a dignidade cristã. Que este dia, dentro de uma semana de solidariedade, que em nossa arquidiocese vai de 9 a 21 de novembro, encontre em nossa oração e em nossas ações uma adesão de fé a este fato. 

E junto com a conclusão do ano litúrgico, aqui em nossa Arquidiocese, estamos já nos preparando para a celebração do dia Nacional de ação de Graças (dia 28) e para a celebração a festa da unidade, no dia 30 de novembro, onde reuniremos todas as forças vivas de nossa arquidiocese para um momento de oração e fraternidade.

Teremos a conclusão do ano vocacional sacerdotal, quando pedimos a Deus pelas vocações sacerdotais em nossa arquidiocese, que temos certeza de que continuaremos a fazê-lo para o futuro, mas também, nessa ocasião, faremos a abertura de um outro grande momento, o ano em que iniciaremos todo um tempo missionário em nossa Arquidiocese, começando com a visão da realidade, descoberta das razões e encontrando soluções para que todo o nosso povo viva permanentemente como missionário e assim pediremos que seja renovado em nós o ardor missionário e a urgência de levar a boa nova de Cristo a todos os homens.

A Palavra de Deus deste domingo convida-nos a meditar no fim último do homem, no seu destino além da morte. A meta final, para onde Deus nos conduz, faz nascer em nós a esperança e a coragem para enfrentar as adversidades e lutar pela vinda do Reino de Deus, conforme pedimos todos os dias na oração do Pai Nosso: venha a nós o vosso reino!

No Evangelho, Jesus (Lc, 21, 5-19) alerta sobre os falsos profetas: “Cuidado para não serdes enganados…” (Lc 21, 8). Diante das catástrofes, Jesus exorta à esperança: não ter medo… Esses sinais de desagregação do mundo velho não devem assustar, pelo contrário, são anúncios de alegria e esperança de que um mundo novo está por surgir. “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se, ergam a cabeça, porque a libertação está próxima”. (Lc 21, 28).

Jesus nos recorda que nossa existência é breve. Àqueles que se encantavam com o aspecto majestoso do Templo, o Senhor recordou que tudo passa. Isso vale ainda hoje: para a nossa casa bonita, para o nosso carro, para o nosso dinheiro, nossa profissão, as pessoas às quais amamos, os projetos que temos, a nossa própria vida: “Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”! Aqui, o Senhor deseja recordar que nossa vida deve ser vivida na perspectiva da eternidade, daquilo que é definitivo. Haverá um momento final, haverá um juízo do Senhor sobre a história humana e sobre a história de cada um de nós, quando, então, ficará claro o que serviu e o que não serviu, o que teve valor ante os olhos de Deus e o que não passou de ilusão e falsidade. Nunca esqueçamos disso: nossa vida caminha para esse momento final, o mais importante de todo nosso caminho. Haverá, sim, um juízo de Deus: “Eis que virá o dia, abrasador como fornalha em que todos os soberbos e ímpios serão como palha; e esse dia vindouro haverá de queimá-los. Para vós, que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas”.

Os evangelhos sinóticos, Mateus, Marcos e Lucas, parecem fazer questão de conservar este discurso de Jesus ante o Templo, que fala sobre a destruição de Jerusalém e sobre o final da história. No discurso de Jesus, podemos perceber que são ressaltadas três questões que estão relacionadas entre si: o evento histórico da destruição de Jerusalém que acontecerá quarenta anos depois, os sinais do fim dos tempos e a segunda vinda de Cristo, agora em glória e majestade.

Podemos notar uma linguagem diferente daquela usada por Jesus em outras passagens do Evangelho. A forma de falar de Jesus nesta passagem corresponde a uma maneira de falar específica, o que costuma ser chamado de apocalíptico, um gênero literário específico, com algumas imagens que não são de fácil interpretação, e que não podem ser levadas ao pé da letra.

O que motiva o discurso de Jesus é a admiração dos discípulos diante da beleza do famoso e grandioso Templo de Jerusalém. Historiadores da época, ao descrever este templo, ressaltam as proporções grandiosas, a harmonia nos ornamentos e a riqueza dos materiais usados. Dentro deste contexto compreendemos a admiração dos discípulos e a resposta dada por Jesus.  Depois de anunciar a destruição do Templo, Jesus fala de fatos que acompanharão este momento: a aparição de falsos messias, assim como guerras e conflitos.

São situações difíceis para todo ser humano. Ante elas, o Senhor recomenda serenidade e confiança. Fala depois das dificuldades que terão aqueles que serão os anunciadores do Reino, como por exemplo perseguições, incompreensões e ódio. Mas Jesus anuncia com clareza esses fenômenos, que não são novidade para nenhum de nós, para ressaltar o auxílio Divino em todas as situações, mesmo que as dificuldades possam parecer muito grandes, elas não escapam do olhar providente de Deus.

A providência Divina rege a história, como nos recorda santo Agostinho. Deus permite todos esses males para deles tirar um bem muito maior, sempre superando nossas expectativas limitadas. O Senhor promete ainda conceder a sabedoria necessária para que estes possam se defender. Logo depois, garante a vitória que é fruto da paciência perseverante. A linguagem simbólica utilizada por Jesus é uma exortação a sermos pacientes e fortes. Comentando sobre esta passagem, Santo Tomás de Aquino assim comenta: “A paciência nos faz suportar os males com bom ânimo, sabendo que eles podem ser caminho para bens maiores. A paciência nos salva, pois é ela quem nos faz ter posse de nossa alma”.

Na Primeira Leitura, o Profeta Malaquias fala do juízo final com acentos fortes: “Eis que virá o dia, abrasador como fornalha”. (Ml 3, 19). O texto não pretende provocar medo, falando do “fim do mundo”, mas fortalecer a esperança em Deus para enfrentar os dramas da vida e da história; esperança que devemos ter ainda hoje, apesar do que vemos.

O profeta vem anunciar um dia de justiça onde os ímpios serão derrotados, ao mesmo tempo em que mostra de maneira explícita como será a retribuição dos justos. O Senhor não é indiferente às preocupações e súplicas daqueles que o temem. Por isso, o dia do Senhor será, para aqueles que o temem, um dia de Glória e felicidade que não se pode expressar.

Na Segunda Leitura, São Paulo (2Ts 3, 7-12) fala da comunidade de Tessalônica. Esta passagem do novo testamento lida na segunda leitura tem um aspecto curioso: os cristãos desta cidade grega, achando que a vinda do Senhor iria acontecer imediatamente, começaram a não querer trabalhar mais. Por isso Paulo coloca-se como exemplo de trabalhador, para assim estimular os tessalonicenses.

Faz parte da vivência cristã cumprir com fidelidade e amor as suas tarefas temporais, santificando as situações do dia a dia, tendo sempre em vista a palavra do Evangelho. Já o Concílio Vaticano II, (Gaudium et Spes 43), nos recorda que a fé é o motivo que nos obriga ao mais perfeito cumprimento de todas as atividades seculares, segundo a vocação específica de cada um. O cristão deve trabalhar com seriedade para dar glória a Deus, atender às necessidades dos seus e servir aos homens, assim como o Filho de Deus veio servir, lembrando de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22, 22).  Cabe a cada um de nós viver cada dia de acordo com a graça e a vontade de Deus.

Enquanto aguardamos, que estejamos diligentes no cumprimento da nossa missão e estejamos vigilantes e preparados para esta vinda, para estar com o Senhor. Que essas últimas semanas do ano litúrgico e essa contemplação das realidades últimas nos faça de um olhar de irmão para os mais necessitados. Que tenhamos atitudes muito concretas para ser presença viva de Cristo em meio aos homens: a caridade social. Que a palavra deste domingo no ilumine e a mensagem do santo padre nos ajude a vivenciar melhor esta vocação de irmos ao encontro das pessoas que mais necessitam em nosso dia a dia. Que vivamos uma vida mais justa e mais fraterna.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro