Permanecei firmes

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Permanecei firmes e seguir jesus

Estamos no penúltimo domingo deste ano litúrgico, do ciclo C, o 33º domingo, e neste domingo também o III Dia Mundial dos Pobres. A Palavra de Deus convida-nos a meditar no fim último do homem, no seu destino além da morte. A meta final, para onde Deus nos conduz, faz nascer em nós a esperança e a coragem para enfrentar as adversidades e lutar pelo Advento do Reino.

Na primeira leitura (cf. Ml 3,19-20a), o Profeta Malaquias fala do juízo final, com acentos fortes: “Eis que virá o dia, abrasador como fornalha” (cf. Ml 3, 19). O texto não pretende incutir medo, falando do “fim do mundo”, mas fortalecer a esperança em Deus para enfrentar os dramas da vida e da história; esperança que devemos ter ainda hoje, apesar do que vemos.

Na segunda leitura, São Paulo (cf. 2Ts 3, 7-12) fala da comunidade de Tessalônica, perturbada por fanáticos que pregavam estar próximo o fim do mundo. Por isso não valia a pena continuar trabalhando. São Paulo diz: “Quem não quer trabalhar, também não deve come” (cf. 2Ts 3, 10).

O trabalho é o meio ordinário de subsistência e o campo privilegiado para o desenvolvimento das virtudes humanas. A fé cristã impele-nos além disso a comporta-nos como filhos de Deus com os filhos de Deus, a viver um espírito de caridade, de convivência, de compreensão, a tirar da vida o apego à nossa comodidade, a tentação do egoísmo, a tendência para a exaltação pessoal, a mostrar a caridade de Cristo e os seus resultados concretos de amizade, de compreensão, de afeto humano, de paz.

Pelo contrário, a preguiça, a ociosidade, o trabalho mal-acabado trazem graves consequências. “A ociosidade ensina muitas maldades” (cf. Eclo 33, 29), pois impede a perfeição humana e sobrenatural do homem, debilita-lhe o caráter e abre as portas à concupiscência e a muitas tentações.

No Evangelho, Jesus (cf. Lc, 21, 5-19) alerta sobre os falsos profetas: “Cuidado para não serdes enganados…” (cf. Lc 21, 8). Diante das catástrofes Jesus exorta à esperança: não ter medo… Esses sinais de desagregação do mundo velho não devem assustar, pelo contrário são anúncio de alegria e esperança, de que um mundo novo está por surgir. “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se, ergam a cabeça, porque a libertação está próxima” (cf. Lc 21, 28).

Jesus nos recorda que nossa existência é breve, tão fugaz. Àqueles que se encantavam com o aspecto majestoso do Templo, o Senhor recordou que tudo passa. Isso vale ainda hoje: para a nossa casa bonita, para o nosso carro, para o nosso dinheiro, nossa profissão, as pessoas às quais amamos, os projetos que temos, a nossa própria vida: “Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído!” (cf. Lc 21,6).

Aqui, o Senhor não deseja ser um desmancha-prazeres, não nos quer arrancar o gosto de viver; deseja tão somente recordar que nossa vida deve ser vivida na perspectivada eternidade, daquilo que é definitivo. Haverá um momento final, haverá um juízo do Senhor sobre a história humana e sobre a história de cada um de nós, quando, então, ficará claro o que serviu e o que não serviu, o que teve valor ante os olhos de Deus e o que não passou de ilusão e falsidade.

Nunca esqueçamos disso: nossa vida caminha para esse momento final, o mais importante de todo nosso caminho existencial. Haverá, sim, um juízo de Deus: “Eis que virá o dia, abrasador como fornalha em que todos os soberbos e ímpios serão como palha; e esse dia vindouro haverá de queimá-los. Para vós, que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas”. Este juízo, portanto, será discriminatório: pode significar vida ou morte, salvação ou condenação!

Num mundo como o atual, que nos quer fazer perder de vista o essencial e nos quer fazer esquecer que caminhamos para o encontro com Cristo como um rio corre para o mar. Vale-nos, então, o conselho de São Paulo, a que vivamos decentemente, trabalhando pelo pão cotidiano, sem viver à toa, mas construindo a vida com a dignidade de cristãos.

O Senhor nos previne que não é fácil: o mundo não nos amará, porque seus pensamentos não são os do Cristo – e isto mais que nunca é claro hoje, numa sociedade consumista, paganizada, amante do conforto e da imoralidade, onde cada um vive do seu modo, como se Deus não existisse… Ouçamos a advertência tão sincera e franca de Cristo: “Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós. Todos vos odiarão (= vos amarão menos, não vos terão entre seus amigos) por causa do meu nome. É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!”.

Ao celebrarmos, neste domingo, o Dia Mundial dos Pobres, que convocados pelo Papa Francisco, iremos refletir: “A esperança dos pobres não será frustrada”. A principal referência para a Jornada é sempre a mensagem do Papa Francisco. Esse ano, o Papa nos oferece como iluminação bíblica a citação do Salmo: “A esperança dos pobres jamais se frustrará” (Sl 9, 19). 

Ele nos diz que “a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora é uma escolha prioritária que os discípulos de Cristo são chamados a abraçar para não trair a credibilidade da Igreja e dar uma esperança concreta a tantos indefesos”.

Merecem nosso compromisso neste dia os migrantes, os órfãos, jovens em busca de realização profissional, quem vive na prostituição e nas drogas. Deus está com os pobres, e isso é da essência do Evangelho. Por isso, como Igreja, continuemos a acolher os pobres que batem em nossas comunidades. São nos pobres que a caridade crista encontra a sua prova real, porque quem partilha os seus sofrimentos com o amor de Cristo, recebe força e dá vigor ao anúncio do Evangelho.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ