Reconheçamos o Senhor Ressuscitado!

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A liturgia deste 3º Domingo do Tempo Pascal recorda-nos que a comunidade cristã tem por missão testemunhar e concretizar o projeto libertador que Jesus iniciou; e que Jesus, vivo e ressuscitado, acompanhará sempre a sua Igreja em missão, vivificando-a com a sua presença e orientando-a com a sua Palavra.

A primeira leitura(cf. At 5,27b-32.40b-41) apresenta-nos o testemunho que a comunidade de Jerusalém dá de Jesus ressuscitado. Embora o mundo se oponha ao projeto libertador de Jesus testemunhado pelos discípulos, o cristão deve antes obedecer a Deus do que aos homens.

A segunda leitura(cf. Ap 5,11-14) apresenta Jesus, o “cordeiro” imolado que venceu a morte e que trouxe aos homens a libertação definitiva; em contexto litúrgico, o autor põe a criação inteira a manifestar diante do “cordeiro” vitorioso a sua alegria e o seu louvor.

O Evangelho(cf. Jo 21,1-19) apresenta os discípulos em missão, continuando o projeto libertador de Jesus; mas avisa que a ação dos discípulos só será coroada de êxito se eles souberem reconhecer o Ressuscitado junto deles e se deixarem guiar pela sua Palavra. Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o a eles. E fez a mesma coisa com o peixe.

A vida retomou o seu ritmo para os apóstolos: reencontram a sua profissão, o seu barco e as redes, mesmo se a vida já não é como antes. Viram o Ressuscitado, Ele apareceu-lhes, reconheceram-n’O, o Espírito foi derramado sobre eles, mas a passagem do ver ao reconhecer não é evidente. João, já diante do túmulo vazio, viu e acreditou. É necessário o seu ato de fé proclamado – “É o Senhor!” – para que Pedro se lance à água para a pesca. Encontramos a espontaneidade tão humana de Pedro e, ao mesmo tempo, a sua espontaneidade de batizado. Os discípulos fazem, nesse dia, a experiência da prodigalidade do amor de Deus: não conseguem arrastar as redes, dada a quantidade de peixe. Fazem também a experiência da universalidade da salvação: havia 153 grandes peixes, número que evoca, segundo São Jerônimo, todas as espécies de peixes enumerados na época. É, então, graças a um sinal que os discípulos reconhecem o Ressuscitado. Jesus Cristo não tem mais necessidade de dizer quem Ele é. Eles sabem que Ele é o Senhor.

Após a Ressurreição de Jesus, há um novo tempo para os discípulos, um recomeço: o Ressuscitado renova a vocação dos apóstolos de serem pescadores de homens(cf. Lc 5,10) e confirma Pedro à frente do grupo apostólico e do seu rebanho, a sua Igreja(cf. Jo 21,15-17). A pesca foi abundante: a rede “estava cheia de 153 grandes peixes”(cf. Jo 21,11). Segundo São Jerônimo, no I século cristão pensava-se que a totalidade de espécies de peixes era de 153. Assim, uma pesca com esta cifra significa que pessoas de todas as classes e tempos seriam salvos através da pregação do Evangelho, realizada por Pedro e pelos apóstolos. Tal alcance da atividade evangelizadora é descrita na Primeira Leitura: os apóstolos, depois de Pentecostes, anunciavam a ressurreição do Senhor, por palavras e por milagres(cf. At 5,12). Este fato resultou na prisão deles. O sumo sacerdote e seus partidários proibiram-lhes expressamente de ensinar no nome de Jesus(cf. At 5,28). Diante disto,  Pedro e os demais apóstolos disseram: “É preciso obedecer a Deus, antes que aos homens!”(cf. At 5,29). Esta resposta, diante do Sinédrio, evidencia a liberdade e destemor que eles experimentavam na relação com as autoridades judaicas e, mais tarde, frente aos reis e governadores.

Os apóstolos, como arautos e testemunhas da ressurreição tinham o poder do testemunho e da conversão. O amor de Deus, derramado nos corações dos apóstolos, impulsionou-os para o testemunho do Ressuscitado e expulsou deles o temor de serem insultados, perseguidos e açoitados por causa do nome de Jesus(cf. At 5,41). Nestes dias, nós, os bispos católicos no Brasil, estamos reunidos para a nossa 57ª. Assembleia Geral da CNBB, em Aparecida, SP. Rezemos, todos, com muita fé, pelos bispos em Assembleia para que a graça de Deus conduza o episcopado para que conforme o seu agir pastoral com a vontade de Jesus. Os apóstolos testemunharam que servem ao Cordeiro Imolado, e que todas as criaturas, do céu, da terra, e tudo o que neles existe, reconhecerão que a Deus e ao Cordeiro devem ser tributados todo louvor, honra, glória e poder(cf. Ap 5,13).

Vamos rezar juntos e peçamos ao Senhor nosso Deus para que Seu Filho Ressuscitado nos auxilie em tudo. E como apareceu aos discípulos que Ele nos ajude a crer incondicionalmente. Rezemos: Meu Senhor e meu Deus auxiliam-nos, a saber, ver-Te a nosso lado, acompanhando-nos em todos os momentos da nossa vida, de tal modo que o nosso coração inflamado por Ti, consiga transmitir a Tua constante presença, a fim de que saibamos, com ardor, comunicá-la a todos aqueles que nos rodeiam. Senhor Jesus, ajuda-nos a estarmos atentos à tua presença nos diversos momentos da nossa vida. Quando escutamos a Tua Palavra, que ela nos alegre, pois é a Tua presença; quando entramos na intimidade através da Eucaristia, que ela nos consiga a paz, quando Te conseguimos descobrir nos outros, que nos estimule o espírito missionário e de serviço.

Mas, temos o cansaço e muitas vezes a canseira do dia a dia nos torna quebrados e sem rumo para a nossa vida. Sem a Vossa presença o barco da nossa vida regressa do mar vazio, sem peixe. A nossa vida fica sem sabor e razão de viver. Só com a Tua presença. Tudo ganha sentido como foi para os dois discípulos no mar de Tiberíades. Temos a certeza de que convosco a canseira de uma noite inteira na faina de pescar resultara inútil. Pois à indicação da Vossa palavra, que se encontra na margem do nosso desespero, faz abundar de peixe as redes da nossa vida a ponto de quase se rebentarem.

Em outra parte do Evangelho Jesus prediz o martírio que lhe está destinado. Manifesta desse modo toda a confiança que deposita em São Pedro. Para nos dar um exemplo de amor e mostrar a melhor forma de amar, diz ele: Quando você era moço, você se aprontava e ia para onde queria. Mas eu afirmo a você que isto é verdade: quando for velho, você estenderá as mãos, alguém vai amarrá-las e o levará para onde você não vai querer ir. Era, aliás, o que Pedro tinha querido e desejado outrora; por isso é que Jesus lhe fala assim. Pedro dissera, com efeito: Eu darei a minha vida por ti! (Cf. Jo 13, 37). E, também: Ainda que eu tenha de morrer contigo, não te negarei! (Cf. Mt 26, 35; Mc 14, 31). Jesus consente o seu desejo. Fala-lhe desse modo não para amedrontá-lo, mas para reanimar seu ardor. Conhece seu amor e sua impetuosidade; pode anunciar-lhe o gênero de morte que lhe reserva no futuro. Pedro sempre desejara enfrentar perigos por Cristo. Tem confiança, diz Jesus, teus desejos serão satisfeitos; o que não suportaste em tua mocidade suportará na velhice. E, para nos chamar a atenção, São João acrescenta: Jesus disse isso para dar a entender com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E esta palavra nos ensina que a nossa honra e glória está em dar a nossa vida por Cristo em nossos irmãos e irmãs que lutam por um lugar ao sol.

Rezemos: Pai torna cada vez mais consistente meu amor por teu Filho Jesus na pessoa do pobre, do órfão, da viúva, do abandonado, do doente, do drogado, da prostituta, do homossexual, deficiente e de todos aqueles que por esta ou outra razão estão privados da sua dignidade de ser criado à Imagem e semelhança vossa e confirma minha condição de discípulo e missionário do vosso Filho para que no poder e a força do Espírito Santo todos tenham vida e a tenham em plenitude. Ajuda, Senhor, que O reconheçamos e o testemunhamos, Amém!

+ Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG